
"Te dou minha palavra" pelos olhos da autora, Noemi Jaffe
Noemi Jaffe apresenta a história que inspira seu novo livro, "Te dou minha palavra".
Dia desses uma leitora me enviou uma mensagem e me disse que achava bonito acompanhar uma literatura que era uma espécie de vingança. Sempre quis me vingar escrevendo, isso é verdade. O ódio sempre me acompanhou, o ódio por tudo que acontece ao norte do país, por tudo que meus ancestrais tiveram que aguentar para abrir essa fenda pela qual passei e pude finalmente contar histórias para ninguém mais dormir em paz. É meu segundo livro em que o corte está fortemente presente. Primeiro Flor de gume, e agora, Degola.
Tinha pesadelos recorrentes em que corria por uma rua de terra atrás de uma garotinha e quando eu a alcançava ela me dava para segurar uma galinha marrom. Entendi que precisava contar a história dessa menina, que meses depois decidi que seria chamada de Sol, por conta de uma jogada de baralho cigano.
Não tinha quase nenhum material de memória, eu lembrava bem pouco da época em que minha mãe e eu moramos em uma ocupação em Manaus. A migração estava na nossa história como está na história de muitos paraenses que foram em busca do “progresso” por conta da Zona Franca de Manaus. Foi necessário o livro ser uma ideia mais estruturada para que eu conseguisse conversar com mamãe sobre esse episódio, depois parti para outras entrevistas, pesquisas historiográficas e a composição de um guia artístico: meu caderno de campo etnográfico. O caderno que eu recorria toda vez que precisava reavivar a imagem da ocupação ou dos personagens.
Uma figura muito importante para o livro foi a Irmã Helena Augusta Walcott, que foi responsável por criar mais de dez bairros em Manaus. A história dessa mulher me incentivou a criar a personagem da Irmã Eliana e a pensar sobre o papel da Igreja e do cristianismo na história. Temos uma protagonista que é uma criança praticamente ateia, cuja melhor amiga, além de suas galinhas, é uma Irmã da Igreja.
O personagem do pai, Alfredo, me ocorreu quando estava faxinando a casa e achei nos meus arquivos anotações de uma matéria que fiz quando era repórter, se chamava “Não se pode calar o passado” em uma página dupla em um especial sobre a Guerrilha do Araguaia, em que entrevistei Paulo Fonteles Filho, que tentava a todo custo preservar os arquivos do Museu da Guerrilha. Eu era uma adolescente quando ouvi aquele homem falar sobre seu pai, Paulo Fonteles, um importante advogado e ativista na defesa da Reforma Agrária. Um nome que a gente cresceu ouvindo no Pará e associando à frase: cabra marcado pra morrer. Lembrei que o filho de Paulo também já não estava mais aqui, muitos de nós não vamos estar, precisamos contar a história de nossos ocupantes, ativistas. Eu precisava que o pai de Sol fosse esse caminho, assim nasceu o Alfredo. Um personagem que me faz chorar toda vez que penso sobre e também admirar a história de muitos líderes comunitários na Amazônia.
A ideia das galinhas nasceu de umas lembranças bem vívidas de infância. Do meu pai me ensinando a degolar galinha. Essas aves sempre estavam presentes. Seja na casa de meus avós ou no sitio de algum parente. Correr para pegar galinha, imitar a fala delas, os trejeitos. Na infância tive demais essa aproximação com a linguagem delas. Como pensava em Sol, a protagonista de Degola, como uma menina mentalmente sozinha com suas dores e luto, acreditei que ela precisava de algum recurso que protegesse a pureza e a poética de sua infância. As galinhas, com sua sensibilidade e inteligência, me pareceram animais perfeitos para isso. A matança dessas aves para Sol é também a morte de sua própria beleza, de sua liberdade, de sua capacidade (quem sabe) de um dia sonhar.
Foi na viagem para um festival literário em Mato Grosso do Sul, com o amigo escritor Febraro de Oliveira, que conheci uma das protagonistas do livro. Paramos para comer em um posto na estrada e ela apareceu. A galinha que depois chamei de Juvinha, pensando na juventude que esses animais me trazem. A outra nomeei de Barrinha em alusão ao barro daquelas ruas da ocupação.
Comecei a andar atrás dela devagar, como fazia na infância. Elas sempre percebem quando estão sendo perseguidas. Gosto de viver a vida com a intuição de uma galinha. Nada precisa me agarrar de fato para que eu saiba que preciso escapar. A sensibilidade e a estranheza das galinhas se conectavam com o modo de sentir e agir que eu queria para a protagonista. Achar o tom das galinhas foi também achar a Sol. Foi ouvindo “Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar” do Siba que escrevi no carro, em movimento mesmo, algumas cenas importantes do livro. Em seguida surgiram as colagens, uma delas virou a capa do livro.
MONIQUE MALCHER é escritora, jornalista e artista plástica nascida em Santarém, Pará. É doutora em estudos de gênero pela Universidade Federal de Santa Catarina e mestre em antropologia pela Universidade Federal do Pará. Seu livro de estreia, Flor de gume (2020), venceu o Prêmio Jabuti na categoria contos. Ela estreia no catálogo da Companhia das Letras com o romance Degola.
Noemi Jaffe apresenta a história que inspira seu novo livro, "Te dou minha palavra".
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