A criança e o exercício de descoberta do mundo
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Houve um tempo em que escrever para crianças era uma tarefa considerada menor para escritores. O francês Charles Perrault, por exemplo, que era um autor renomado entre adultos, preferia não assinar algumas de suas obras voltadas ao público infantil. Paradoxalmente, hoje ele é conhecido pela produção infantil quase de forma exclusiva.
Atualmente, muitos autores “adultos” também escrevem para crianças. Essas obras podem conquistar pequenos leitores em formação, com os títulos infantis, e permanecer em sua estante de preferidos para o resto da vida, com a obra mainstream, colaborando inclusive para a manutenção do hábito da leitura ao longo da vida.
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Da mesma forma, os leitores adultos que admiram o trabalho de alguns autores podem correr para a literatura infantil quando estes lançam livros para crianças.
Exemplo disso é o livro Eu sou a monstra, da poeta e dramaturga Hilda Hilst, lançado recentemente pela Companhia das Letrinhas. Uma das mais aclamadas escritoras brasileiras do século 20, a escritora tem mais de trinta livros publicados e um séquito de fãs de sua obra adulta.
Para o público infantil, criou apenas o poema que compõe Eu sou a monstra e que foi escrito para Daniel Fuentes em 1988. Filho de grandes amigos da autora, ele conviveu com Hilda e tinha apenas 5 anos quando ela escreveu o poema para “o meu amigo Daniel”.
Além de Hilda, vamos conhecer outros autores de “adultos” que escreveram para crianças?
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O elefante é um dos poemas mais conhecidos de Drummond e foi lançado em 2021 como livro, com ilustrações da argentina Raquel Cané. Para o público infantil, Drummond escreveu História de dois amores, um livro encantador que começa com a amizade entre um pulgo muito cheio de si e um elefante…
O poeta pantaneiro que descreveu como ninguém as miudezas e desimportâncias da vida e da natureza tem mais de 18 livros publicados. Embora toda a sua obra tenha potencial para encantar os pequenos leitores, por tratar de temas caros à infância e pelo lirismo, Poeminha em língua de brincar e Cantigas por um passarinho à toa reúnem poemas escritos para o público infantil, em nova edição ilustrada pelo artista Kamal João.
Outro poeta que, mesmo com sua obra adulta, sempre escreveu sobre a infância. O batalhão das letras é de 1948 e seu primeiro livro para crianças, um abecedário poético de “vinte e oito estrofes que apresentam o alfabeto, suas formas gráficas e seus fonemas, sempre em associação aos objetos e ao ambiente do universo infantil”. Em Pé de pilão, Mário Quintana conta, em forma de poema, uma aventura fantástica sobre de um menino que foi transformado em pato por uma bruxa e precisa encontrar sua avó.
O Nobel de literatura tem dois livros escritos para crianças e jovens. Em Fonchito e a lua, o menino do título precisa dar um jeito de conseguir a lua para Nereida, a menina que ele acha a mais bonita da escola. Em O barco das crianças, o mesmo Fonchito, já mais velho, faz amizade com um senhor misterioso que passa os dias a observar o mar e de quem ouve a mais fantástica história.
Autor do aclamado Terra sonâmbula, o moçambicano tem sua estreia na literatura infantil com o livro O gato e o escuro, em que um gatinho desafia uma regra de sua mãe e seu próprio medo ao explorar a escuridão da noite.
Já A água e a águia é uma fábula em que, num tempo muito anterior ao nosso, as águias eram as donas do mundo. Quando precisam enfrentar a escassez de água, conseguem se salvar por meio de um encontro com as letras e as palavras. Nas palavras do poeta Fabrício Corsaletti para a quarta capa do livro, “Mia Couto nos oferece uma visão da poesia e da natureza que não deixa margem para dúvidas: na sua origem, elas estavam entrelaçadas.”
O romancista, contista e ensaísta americano, autor de Lincoln no limbo, também escreveu livros infantis para crianças de todas as idades. Os grudolhos perseverantes de Frip é uma história tocante e muito bem-humorada sobre uma pequena aldeia onde as cabras são infestada por grudolhos, uma espécie de carrapicho gigante que acaba com a energia – e o leite – das bichinhas. Todos os dias, as crianças de Frip escovavam as cabras para tirar os grudolhos, que, todas noites, grudavam de novo nas cabras. Apesar de seus vizinhos egoístas, a pequena Valência descobre uma maneira de todos na aldeia viverem melhor e ser mais felizes.
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