Desafios da produção gráfica: a materialidade dos livros infantis é linguagem!

29/04/2026

Velho Sertão

As cores quentes do Velho Sertão (Pequena Zahar, 2026), nas aquarelas de Marcelo Toletino

Você já ouviu falar no termo “livro-objeto” ou “objeto-livro”? Usado entre os estudos acadêmicos nas questões entre livro e leitura, em geral quer chamar a atenção para o livro como um artefato, algo que é constituído de uma materialidade. Seja ele um romance como Grande Sertão: Veredas (de João Guimarães Rosa), com um volume de texto para quem tem bastante fôlego e traquejo na interpretação de Rosa, seja ele composto apenas com ilustrações; seja o livro grande com abas ou recortes nas páginas, ou o pequeno perfeito para caber nas mãos de um bebê, a “materialidade no livro” nada mais é do que as escolhas que compõe o projeto gráfico dele.

Nas últimas quase três décadas, o Brasil tem cada vez mais oferta em edições pensadas para que a materialidade seja mais cuidada, mais percebida e, até lida como parte das intenções narrativas de leitura dos autores e autoras. Dos livros voltados a bebês a edições de colecionador de grandes clássicos da literatura, parece que quanto mais avançamos no consumo das telas, mais nos empolgamos em sentir o livro nas mãos, em situações que tocá-los também é leitura. “Quando se trata de livro-objeto e suas modalidades, mais do que o assunto ou o tema da história a ser contada, o foco poético se fixa justamente no modo de narrar, que acontece tanto pelas articulações inéditas entre a palavra e a imagem quanto pela sua materialidade, a sequência das páginas, sua estrutura formal. E dessas conjugações entre a forma sintática do livro e sua materialidade, desses entrecruzamentos entre tempo e espaço, entre forma e conteúdo, entre significante e significado, nascem as narrativas”, escreve Edith Derdyk, a autora, pesquisadora e criadora dos chamados “livros de artista”, em um dos artigos da edição da revista de Pós-graduação em Artes da Escola de Belas Artes da UFMG, em 2012. 

Nos selos infantis da Companhia das Letras (Companhia das Letrinhas, Pequena Zahar, Brinque-book e Escarlate), há duas especialistas no assunto em que a palavra “desafio” está colada à “criatividade”: são Helen Nakao, gerente de arte, e Rosana Trevisan, gerente de produção editorial. Tudo que a gente pegar nas mãos dos nossos catálogos, passou antes pelas análises delas. Se é um livro com capa dura, com miolo em papel couchê, embrulhado numa cueca; se é um livro sanfonado que precisa imitar a brincadeira de cabo-de-guerra; se é um livro que a intenção é sentir a textura de um papelão na capa... a conversa é com elas. Mas também se é um livro mais “tradicional”, lombada quadrada, fixado com grampo, cores desafiadoras que lembrem o quente do sertão nordestino, ou a tipografia ideal para determinada idade destinada, também é tudo com elas. 

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O “livro da cueca”

Há muitas discussões sobre as escolhas gráficas para os livros e o que isso reverbera no acesso às obras, pensando custo do exemplar, da logística da circulação e, muitas vezes, da forma de mediar para uma criança. Os “muito sofisticados”, que exigem técnicas de impressões mais caras, por exemplo, se tornam desafios para as editoras. Tanto se ele está nascendo, por exemplo, aqui no Brasil, quanto se for material traduzido de outro país.

Há uma novidade do catálogo da Companhia das Letrinhas chamada A Cueca do Urso-Polar (Companhia das Letrinhas, 2026), que está sendo apelidado de “o livro da cueca”. O motivo é bem concreto: para narrar a história de um urso-polar que perde a própria cueca e, com a ajuda do amigo ratinho percorre o livro todo em busca da peça, a obra da dupla japonesa Tupera Tupera tem uma cueca de papel que envolve o livro, uma sobrecapa fofa que obriga o leitor a “tirar a cueca” antes de começar a ler. E isso faz toda a diferença na narrativa, não é “luxo” ou um “capricho” da edição. 

A cueca do urso polar

O "livro da cueca", como é chamado A Cueca do Urso-Polar (Companhia das Letrinhas, 2026)


Este tipo de “detalhe” tem custo alto. “A gente não consegue fazer um livro desse aqui no Brasil. É muito caro fazer um livro todo com facas”, conta Rosana. Facas? Sim, “facas” em um livro são ferramentas na impressão que criam os recortes nas páginas. No japonês, a cada virar de páginas temos um tamanho de cueca diferente, que é justamente o enredo – e a graça – da obra. Cada decisão das editoras dos selos para publicar livros – estrangeiros ou daqui – passa por uma análise de custos. No caso deste, ficou mais viável imprimir o livro brasileiro junto à impressão do original. Algumas vezes nem é uma opção. “No caso desse livro, era uma exigência da editora japonesa que a gente imprimisse com eles porque eles queriam garantir a qualidade deles. Eles são muito rigorosos nesse ponto”, destaca Rosana. 

Aí vem a segunda parte do trabalho: a editora do livro original envia os arquivos para cá, e a equipe daqui posiciona nas páginas o novo texto, no caso a tradução de Luciane Yasawa, e envia para ser impresso. A equipe de lá faz o trabalho e manda o livro de navio, por isso há também na conta o custo de importação.  

Com os livros da russa Katerina Gorelik, há um outro procedimento. A publicação, por exemplo, de Olhe Pela Janela (Brinque-Book, 2022), aconteceu de outra forma. “Esse aqui também é estrangeiro, mas também é nacional, porque a gente imprimiu aqui. E aí eu vou te dizer a diferença desse para o do Urso-polar.  Esse daqui também tem faca em quase todas as páginas. Ele tem a janelinha. A gente teve autorização e conseguiu imprimir aqui. E por quê? O papel que a gente usou aqui é um offset. Um pouquinho mais grosso, não chega a ser um empastado. E não são todas as páginas que têm a faca. São muitas, mas não são todas. Então, a gente estudou um formato de livro e o tipo de papel que a gente conseguiria colocar na capa, no miolo, que ficasse boa a faca, e que não nos custasse um absurdo para a gente repassar para o leitor. Não posso pôr um papel fininho porque senão a faca na hora de cortar na gráfica vai rasgar o papel. São detalhes que a gente resolve na produção e aprova com a editora responsável”, relata Rosana. E acrescenta que há outra camada de cuidado. “Também na empresa a gente não trabalha com qualquer gráfica. A gente tem que trabalhar com gráficas homologadas”, explica ela falando de empresas que, entre outras coisas, têm o selo FSC (Forest Stewardship Council), uma certificação internacional que garante que o papel provêm de florestas manejadas de forma responsável, socialmente justa e ecologicamente correta. 


Cor é personagem, textura é leitura!

Há obras que podem até não ter as tais facas ou materiais extras como luvas, sobrecapas, abas, mas a materialidade é tão especial quanto. Por exemplo, o livro Azul Haiti, lançado também pelo selo da Letrinhas em 2025, da autora Paty Wolff. Helen Nakao explica que quando o projeto chegou à editora, o projeto tinha o fomento à cultura pela Lei Paulo Gustavo, numa parceria entre o Ministério da Cultura e a prefeitura de Cuiabá. Isso significava uma verba própria para incluir nas possibilidades da impressão. Assim, a primeira decisão é: podemos fazer um livro diferente, então, o que tem nele para ser explorado? “A primeira coisa é que a autora queria esse azul vivo”, diz Helen. E iniciaram-se os testes do uso de cores e a escolha do papel. O arquivo veio na “raiz” de Paty Wolff: criações feitas em cima de papelão ondulado e escavado! Imaginem o desafio para deixar o livro, impresso em grande escala, o mais perto possível da arte da autora. Como tudo teve que ser reproduzido em foto – usar um scanner não seria possível por conta do volume do papelão, que faria com que entrasse luz mais do que deveria –, houve o processo digital de tratamento da imagem, sempre na perspectiva de aproximar o máximo possível do original. “É imitar o original mesmo. Eu olhava para o projeto, todo o trabalho da Paty com o papelão, aquele azul incrível, o caminho desse livro é totalmente sensorial”, diz Helen, que tinha que calcular as perdas e ganhos da impressão no papel offset. É um trabalho meticuloso, possível de ser previsto por pessoas como ela e Rosana que, inclusive, começaram na intimidade da produção gráfica de livros quando o dia a dia era ainda mais artesanal.

 

Capa de Azul Haiti

O incrível trabalho com o papelão de Paty Wolff em Azul Haiti (Companhia das Letrinhas, 2025)

Foi dos anos 1990 para cá que os recursos foram aumentando no Brasil e, assim, as escolhas também, pois todos os detalhes das etapas de impressão influenciam. “Se, por exemplo, for um processo em que a gráfica tem que colocar muita tinta, vai demorar mais para secar. Eles vão ter que colocar em pilhas pequenas para secar mais rápido, ou vai ter que rodar mais devagar. O acerto de máquina vai ter que ser mais recorrente. Por exemplo, eles fazem um acerto a cada, sei lá, quinhentas folhas, mil folhas. Esse vai ter que ser de duzentas em duzentas”, exemplifica Helen. “Eles estão trabalhando com a relação tempo e dinheiro.”

LEIA MAIS: Azul da cor do mar – do Haiti. Uma conversa com Paty Wolff


Decisões coletivas

O trabalho, como podem ver, é imenso, complexo e varia livro a livro. Claro que cada projeto ensina procedimentos aos próximos. A equipe do editorial participa o tempo todo. No nosso papo, outra obra entrou na conversa como exemplo: Velho Sertão (Pequena Zahar, 2026), texto de Fernanda Rios e imagens de Marcelo Tolentino. “Cada livro que eu faço do Tolentino, ele traz uma proposta superando o anterior”, observa Helen, lembrando que este livro especificamente tinha um valor pessoal especial para a escritora, que se inspirou na memória do pai, e era um desafio para o autor das imagens encontrá-la nesse “lugar”. O processo, então, não é apenas técnico. “É dar apoio, acolher. Perceber quais são as dores, entender quais são as vontades, o que a pessoa vê, o que a pessoa não está conseguindo falar”. 

E assim segue-se para o livro seguinte, aquele que ainda vai surgir, no desafio de estar entre manter a qualidade artística nos mais variados aspectos, e tornar o livro acessível e com vida longa. 

(texto: Cristiane Rogerio)

 

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