O que é um livro para bebês?
O mercado de livros para bebês é recente no Brasil, mas tem crescido com a entrada cada vez mais cedo nas creches e o maior interesse pela primeira infância. Mas o que de um livro próprio para bebês?
A alemã Susanne Strasser é uma das principais autoras infantis contemporâneas e se consagrou como referência de obras para a primeira infância ao narrar contos acumulativos com plot twists surpreendentes. E mais uma delas acaba de chegar às prateleiras: Vai logo, texugo! (Companhia das Letrinhas, 2026).
“O escorregador está livre!
O texugo quer escorregar.”
Uma grande fila vai se formando no escorregador porque o texugo empaca lá em cima... Vai logo, texugo! (Companhia das Letrinhas, 2026)
E assim começa. O texugo sobe as escadas, mas quando o texugo chega lá no alto… poxa vida, era alto demais! E ele empaca no topo do escorregador. Só que, a cada página, parece um bicho que quer escorregar. A narrativa avança e o texugo continua lá em cima e enquanto a escada do escorregador, fica cada vez mais congestionada. A bicharada precisa esperar. Até que a criança aparece e arruma uma solução para o problema… Qualquer semelhança com o parquinho não é mera coincidência. Esperar a vez, lidar com o medo, exercitar a tolerância com o outro… tudo isso faz parte do dia a dia das crianças.
Vai logo, texugo! segue a mesma estrutura que quem conhece a obra se Strasser já conhece, uma fórmula que se tornou uma espécie de assinatura de seu trabalho. Mas nem ela poderia imaginar quão longe essa encantada forma de criar narrativas de livros para bebês e crianças pequenas poderia levá-la. "Não planejei nada disso, foi uma abordagem muito intuitiva", revelou a autora em entrevista ao Blog Letrinhas, em 2024.
O guaxinim ajuda os amigos a deixarem as roupas bem limpinhas no mais novo lançamento de Susanne Strasser: Oi, guaxinim, pode lavar pra mim? (Companhia das Letrinhas, 2024)
Seu primeiro livro nesse formato foi Bem lá no alto (Companhia das Letrinhas, 2016), uma história escrita para seu filho, Alexandre. Depois, vieram: Muito cansado e bem acordado (Companhia das Letrinhas, 2017), Baleia na banheira (Companhia das Letrinhas, 2020), A raposa vai de carro (Companhia das Letrinhas, 2022), Posso ficar no meio? (Companhia das Letrinhas, 2022), A sopa está pronta! (Companhia das Letrinhas, 2024), Oi, guaxinim, pode lavar para mim? (Companhia das Letrinhas, 2024) e mais recentemente Pega a bola! (Companhia das Letrinhas, 2025) e Vai logo, texugo! (Companhia das Letrinhas, 2026).
LEIA MAIS: O que é um livro para bebês?
Susanne tem obras traduzidas para mais de 20 idiomas e considera “uma bênção e uma maldição” ter criado essa espécie de assinatura autoral, que aconteceu meio por acaso. Ela já foi destaque na Bienal de Ilustrações de Bratislava e recebeu reconhecimentos importantes por suas publicações. Hoje vive em Munique, Alemanha, junto com seus dois filhos, Alexander e David.
A autora esteve no Brasil no final de 2024 Visitou Pomerode (SC), um município de origem alemã localizado no vale do Itajaí, e participou da FLIPomerode, o Festival Literário Internacional de Pomerode, em Santa Catarina. Ela passou também por São Paulo, capital, onde marcou presença na Bienal do Livro, visitou a Casa Cosmos e pôde vivenciar um pouco da cena literária brasileira. Na ocasião, Susanne conversou com o Blog Letrinhas sobre as dores e delícias de ter encontrado um formato de livro que se tornou um fenômeno para a primeira infância e as inspirações para suas obras.
Logo abaixo, você relembra a entrevista, e, em seguida, pode conhecer todas as obras da autora publicadas pela Companhia das Letrinhas.
LEIA MAIS: Plot twist: as reviravoltas que amamos
Susanne Strasser: Primeiro de tudo, gostaria de enfatizar que não importa em qual dos dois lugares, Pomerode ou São Paulo, as pessoas foram incrivelmente gentis e calorosas comigo. Fui recebida de braços abertos! A cordialidade e a hospitalidade do povo brasileiro, o entusiasmo de vocês, foi o melhor de toda a viagem. Sou muito grata por esta experiência maravilhosa e gostaria de agradecer ao Festival Literário Internacional de Pomerode e à Companhia das Letrinhas pelo convite.
Pomerode é uma cidade menor cercada por muito verde. Lembro que fiquei muito surpresa ao ler todos aqueles nomes de ruas alemãs e ver as influências alemãs por todo o lado. Foi um tanto surreal viajar a milhares de quilômetros de Munique e me encontrar em um café chamado “Tortenparadies” ["Paraíso dos Bolos", em tradução livre. É o nome também de uma rede de confeitarias em Munique]. Mas os bolos eram muito bons! O FLIPomerode, o festival literário de lá, foi muito bem organizado, o público foi incrível e as pessoas fizeram um trabalho muito profissional para fazer um evento desses nessa região do Brasil.
São Paulo é enorme se comparada às cidades que conheço da Alemanha. Só pude ver um pouco! Mas acompanhada da Gabriela [Tonelli, editora das Companhias das Letrinhas], melhor guia de turismo de todos os tempos, conheci os lugares mais lindos de São Paulo e participei de eventos maravilhosos de leitura. No entanto, estou bem consciente do abismo entre ricos e pobres, o que é óbvio! Isso me torna humilde e grata pelas oportunidades que me foram dadas.
Susanne Strasser: Que vergonha, meu primeiro contato real com os livros infantis brasileiros foi só durante minha viagem ao Brasil! Infelizmente, não falo português e não tenho certeza de quantos livros brasileiros chegam traduzidos ao mercado alemão de livros infantis. Tive a grande sorte de conhecer colegas brasileiros maravilhosos e inspiradores como Renato Moriconi e Marcelo Tolentino, para citar apenas dois.
Susanne Strasser: É uma bênção e uma maldição. Bem lá no alto foi o primeiro livro desse tipo, com esse padrão acumulativo, um enredo crescente, o texto onomatopeico e a criança. Não planejei nada disso, foi uma abordagem muito intuitiva. Eu só queria criar um livro para meu filho Alexander. Isso foi há mais de 10 anos e agora essas obras estão traduzidas para quase 20 idiomas. Quem poderia ter previsto isso?
Hoje, é claro que a abordagem é diferente. Existe uma estrutura muito familiar, que as pessoas conhecem e as crianças adoram, é o que, de alguma forma, esperam dos meus livros infantis. A estrutura é uma espécie de assinatura e os livros viraram uma série.
Os elementos dessas histórias são como os ingredientes de uma receita. Eles estão definidos, e eu os aproveito e tento reorganizá-los em uma história divertida e sempre surpreendente para os menores. Às vezes é mais fácil, outras vezes, não.
Susanne Strasser: Em primeiro lugar, sou ilustradora e ainda ilustro histórias de outros autores. Portanto, estou explorando outros formatos o tempo todo. Ilustro livros ilustrados, livros infantis, poemas, antologias de poesia… Me considero uma contadora de histórias, seja com imagens, seja com palavras.
Como autora acabei de escrever (e ilustrar) uma pequena história em rimas para Pixi, uma marca da editora alemã Carlsen. E há alguns anos escrevi um livro ilustrado para crianças mais velhas que se tornou um filme live-action.
Mas ainda tenho coisas na gaveta... e quem sabe um dia escreverei uma história mais longa para crianças maiores. No momento, ainda me divirto com meus livros infantis e com muitos outros tópicos e temas que precisam ser contados.

O que tem para o almoço? Sopa! Ilustração de A sopa está pronta (Companhia das Letrinhas, 2024)
Susanne Strasser: Meu ponto de partida para os meus livros infantis é sempre o horizonte de experiência de uma criança de 2 anos. O que é importante para as crianças desta idade? O que elas experimentam? Com que assuntos eles estão lidando e o que já podem fazer e entender?
E embrulho tudo isso em uma pequena história divertida.
Normalmente, começo a escrever primeiro (no meu computador) e depois faço esboços rápidos à mão com lápis para ver se as coisas que tenho em mente funcionam visualmente. Às vezes é o contrário, e o meu ponto de partida é uma imagem, um esboço. Normalmente escrever, desenhar, pensar (pensar muito!), tudo isso anda de mãos dadas, é um processo fluido.
Eu desenho um storyboard rascunhado que também contém o texto para discutir o enredo com meu editor e ver como ele se desenvolve em 12 páginas duplas. Discutimos muito e pensamos de novo e de novo. Cada palavrinha é cuidadosamente escolhida.
Depois, desenho os animais (e as cenas) da história propriamente ditas. E mais tarde, começo a fazer as monotipias [uma técnica de gravação que resulta em uma impressão única], pois os contornos pretos dos livros não são apenas desenhos, mas monotipias feitas à mão.
Essas impressões em preto e branco (cerca de 70 folhas A4) eu digitalizo, organizo como páginas espelhadas e pinto digitalmente com o Photoshop.
Susanne Strasser: Sim, isso é intencional. Mas publiquei o meu primeiro livro desse tipo, que é Bem lá no alto, há 10 anos. Naquela época, gênero não era uma questão tão importante na Alemanha - ou em qualquer outro lugar - como é hoje.
Eu simplesmente queria criar um personagem humano que pudesse ser uma figura de identificação para todas as crianças. E que fosse, portanto, “neutro em termos de gênero”, sem ter um nome, como os diferentes animais nos livros, que só são nomeados de acordo com sua espécie. Naquela época, eu não poderia ter percebido que estava à frente do meu tempo.
Os livros infantis são sempre documentos contemporâneos e refletem questões ou tendências sociais. Gênero e também diversidade são temas importantes que hoje se refletem nos livros infantis alemães. Acho que isso é certo e importante, desde que não se torne restrito e artificial ou um meio para um fim, sem fazer sentido para a história.
Blog Letrinhas: Você contou em uma entrevista passada, que seus filhos inspiraram Posso ficar no meio? Há mais algum livro que surgiu da sua experiência como mãe?
Muito cansado e bem acordado também foi inspirado por nossa vida familiar. Meu segundo filho, David (o livro é dedicado a ele), aos três anos de idade, tinha as ideias mais criativas sobre por que ele não poderia ir para a cama na hora de dormir, e foi assim que surgiu a ideia deste livro.
A sopa está pronta! é sobre preparar e compartilhar comida junto, comer em comunidade… Mas a ideia original deriva das poções mágicas e sopas de mentirinha que as crianças misturam na caixa de areia. Quando eu era criança, adorava misturar galhos, folhas e areia com água fazia sopas de lama e fingia que cozinhava!
Já com Oi, guaxinim, pode lavar pra mim?, queria criar um livro com peças de roupa simples e os primeiros termos para roupas como calças, saia, chapéu... pois isso é algo com que as crianças pequenas lidam todos os dias e vem diretamente do seu dia a dia. Procurei protagonistas animais que se enquadrassem nessa ideia e me deparei com o guaxinim (em alemão Waschbär = urso lavador). E como lavar e brincar com água também é um tema familiar para crianças pequenas, assim como as cores, tentei colocar tudo isso junto em uma história!
Susanne Strasser: Sim, eles fizeram e fazem parte dos meus processos de criação. Quando eles eram muito mais novos, testei os livros com eles. Uma vez até mudei o final de um livro, Baleia na banheira, porque ambos acharam que o final não era convincente [Susanne conta mais sobre o episódio nesta entrevista]. Eles estavam certos! Agora eles já são muitos grandes para o público-alvo, mas ambos são muito criativos, então sempre peço a opinião deles.
Huuumm… um bolo de chocolate! Que pena que ele está beeeeeem lá no alto, enquanto o urso está lá embaixo. Logo chega o porquinho. Ele sobe no urso, mas o bolo continua bem lá no alto. Depois vem o cachorro, o coelho…E, assim, os bichos vão chegando, um a um, página a página, empilhando-se para chegar mais alto. Quando eles parecem prestes a alcançar o quitute, a janela onde o bolo está se fecha. Aaaaaah! Mas, calma: vai ter bolo para todo mundo!
A foca, o pelicano, o jacaré, a raposa e o ouriço já estão acomodados na cama, prontinhos para dormir. Mas, um a um, eles acordam e vão saindo do quarto. Onde será que eles estão indo? Um livro perfeito para quem não consegue dormir sem um beijinho de boa noite.
A baleia tinha planos: tomar um banho bem tranquilo na banheira. Que relaxante! A tartaruga é a primeira a interrompê-la, pedindo para entrar na água também. “Tudo bem”, responde a baleia. Mas logo se juntam a elas o castor, o flamingo, o urso polar … e não demora para que o banho relaxante se transforme em um aperto sufocante! Até que a baleia resolve dar um mergulho e splash!
A raposa passeia de carro, tremelicando entre trancos e barrancos. O rato pega carona com ela. A toupeira também. E o passarinho. E a cobra… Mas, distraída entre poças e pedregulhos, desviando de obstáculos, virando para um lado e para o outro, a raposa nem dá trela para toda a bicharada que vai se juntando a ela no percurso. Até que eu susto muda tudo!
A criança está com o livro em mãos, prontinha para começar a contar a história! “Vem, vamos ler um livro!”, ela chama. O hamster vem se juntar a ela… junto com a zebra, o gato, a cegonha, o peixe e o leão. Mas todos vão pedindo para que a criança espere só mais um pouquinho para começar. Um quer sair para chamar os demais, o outro quer pegar uma almofada para abraçar… Quando será que finalmente a história vai começar?
Huuuum! Sabe o que vai ter para o almoço? Sopa! A criança está a postos no fogão com uma grande panela! E cada bicho vai chegando para dar sua contribuição para a receita. O cavalo traz beterrabas; a cabra, galhos fininhos; o cachorro carrega um osso… mas a sopa não fica tão deliciosa como eles esperavam. E agora?
A ideia inicial deste livro era criar um conto acumulativo com peças de roupas simples, que têm a ver com a rotina e o vocabulário das crianças pequenas. Procurando animais que pudessem participar da brincadeira, a autora encontrou o guaxinim - e aproveitou o trocadilho. Em alemão, guaxinim se traduz como Waschbär, que quer dizer "urso lavador". E haja roupa para o guaxinim lavar! Os bichos vão chegando com as prendas e o guaxinim vai deixando tudo nem limpinho. Ele só não contava que o tempo não iria ajudar…
O pato adora jogar bola! E ele está se divertindo enquanto joga… até que com um chute forte demais, a bola vai para bem longe! Onde será que ela está? Página a página, o pato avança atrás da bola, enquanto outros animais vão se juntando a ele.
O texugo sobe as escadas do escorregador. Eba! Mas quando chega lá em cima… poxa, era alto demais. O texugo empaca. E os animais, que também querem escorregar, vão chegando e formando uma fila atrás dele… é preciso esperar. A pergunta é: o que poderá fazer o texugo perder o medo de escorregar?
(Texto: Naíma Saleh)
LEIA MAIS: O fenômeno Susanne Strasser para leitores da primeira infância
O mercado de livros para bebês é recente no Brasil, mas tem crescido com a entrada cada vez mais cedo nas creches e o maior interesse pela primeira infância. Mas o que de um livro próprio para bebês?
O gênero em que "cada hora chega mais um" é muito popular entre os leitores bem pequenos, que conseguem memorizar a estrutura simples e recontar a história sozinhos
Na literatura infantil, narrativas com plot twists - ou reviravoltas surpreendentes - podem ter sérias consequências: formar apaixonados por livros