A criança e o exercício de descoberta do mundo
O desejo de proteger os filhos pode criar a ilusão de que os pais podem controlar as experiências que as as crianças inevitavelmente vão vivenciar na descoberta do mundo
Maracatu logo cedo, às dez horas da manhã. Foi assim que começou o último sábado (15/12) das crianças da Pró-Saber. A ONG que atua para democratizar as oportunidades na área da educação desde 2003 em Paraisópolis, zona sul de São Paulo, não poderia encontrar melhor maneira para encerrar o ano do que um encontro de artes: primeiro a música para despertar o corpo, depois a literatura e o desenho para despontar a criatividade e, por fim, o teatro para acordar os olhos.

O grupo de jovens que se apresentou com tambores e xequerê contava com ex-alunos e funcionários da instituição e conseguiu contagiar a plateia a ponto de encontrar em cada canto um lugar para também batucar. Palmas ou o tatame de EVA, naquele momento, tudo era instrumento de percussão. Ao fundo um sussurro: “alguns desses jovens conseguiram bolsas em escolas privadas muito boas e agora já estão prestando vestibular. Parece que passaram na primeira fase da Unesp.” A melodia se completava.
Mais tarde, as crianças foram divididas em grupos e se reuniram em diferentes salas com os autores convidados. Na quadra, a dupla Blandina e Lollo. Enquanto ela contava a história de Quem soltou o pum?, ele pintava ilustrações do mesmo livro. No papo com as crianças, Lollo, sempre bem-humorado, relembrou as histórias das manchas em seu avental, como a de Maricota e João, que estavam distantes, mas são casados e, quando o avental dobra, os dois podem se ver.

O público participou bem interessado na conversa sobre puns e gases sonoros sem nenhum constrangimento. Um garoto denunciou que o primo “solta pum na cara de todo mundo”, e o autor Renato Moriconi, que, por estar com o pé machucado, ficou sentado junto a plateia, logo levantou a mão quando Blandina perguntou quem ali soltava pum. (E, afinal, quem não solta?) Terminada a história, as crianças foram convidadas a pintar seus próprios Puns – os cachorros de estimação, claro!
Na biblioteca, Patricia Auerbach divertia o seu grupo com a história de uma “madre bigoduda” que cairia em uma travessura das noviças cansadas de receberem ordens arbitrárias. Depois, a autora ainda recebeu mais uma acompanhante, o fantoche de uma menina de cabelos vermelhos. Muito simpática, a garotinha de pano criou até mesmo um código secreto entre aqueles presentes na sala, e a saudação de Star Trek foi ressiginificada.


A sala do último andar abrigou a dupla Lalau e Laurabeatriz, com 23 anos de parceria e cerca de 50 títulos lançados. Em uma atividade semelhante a que acontecia na quadra, Lalau contava a história de Bebê brasileirinhos e pedia para que as crianças adivinhassem os animais que eram desenhados por Laurabeatriz. O cavalo-marinho foi uma das espécies que trouxe surpresa: “Pode ter mil filhotes e ainda é o macho que carrega os bebês”. Lalau não hesitou e logo soltou: “Eu tenho um que já me deixa doido, imagina mil!”.

Por último, todos retornaram à quadra para assistir a uma adaptação teatral do livro-imagem Bárbaro, de Renato Moriconi. O grupo Os Bárbaros – que recebeu tal denominação no momento em que se apresentou – fez um lindo trabalho de criação a partir da narrariva não-verbal sobre um guerreiro. que enfrenta os perigos bravamente, até ter seu ponto fraco tocado.
O grupo acrescentou uma tribo canibal alienígena como um dos obstáculos a ser enfrentado pelo protagonista e a imagem da mãe no enredo. E o espetáculo conquistou as crianças. Algo que para Júlia, uma das integrantes do grupo, é decisivo, já que o público infantil é verdadeiro e espontâneo. A opinião positiva das crianças foi percebida nas interações que oscilavam entre gritos que pareciam pedidos de socorro, por todas aquelas criaturas estranhas em cena, e risadas que confortavam como aplausos.

Depois da abertura com maracatu, das conversas com os escritores e ilustradores e do espetáculo sobre o bravo guerreiro, só mesmo sorvete de morango e chocolate para encerrar um encontro tão saboroso dos autores da Companhia das Letrinhas na ONG Pró-Saber.

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Foi só aos 40 anos que Claudia tirou da gaveta o sonho de ser professora. E hoje, 16 anos depois, além de dar aulas de redação, ela é criadora de um Clube do Livro em Caruaru (PE)
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