A criança e o exercício de descoberta do mundo
O desejo de proteger os filhos pode criar a ilusão de que os pais podem controlar as experiências que as as crianças inevitavelmente vão vivenciar na descoberta do mundo
Texto escrito por Josiane Pareja Del Corso, diretora da Ateliê Carambola Escola de Educação Infantil e do Centro de Pesquisa e Documentação Pedagógica Ateliê Carambola, além de integrante da Rede Pikler Brasil) para o site do Aliança Pela infância, no especial Semana Mundial do Brincar.

Grupo 1 e o quintal de possibilidades na Ateliê Carambola (Unidade 1 - Rua São Samuel)
Brincar de corpo e alma. Este é o tema da Semana do Brincar 2018, que termina hoje, dia 28 de maio.
Depois de falar sobre espaço e tempo, é vez de refletir sobre o corpo e toda força que essa palavra traz. É pela linguagem do brincar que a criança de zero a três anos de idade adentra o mundo. Nessa fase, podemos dizer que a criança é, na verdade, um corpo integrado que busca descobrir tudo ao seu redor - cada ruído, fragmento, cheiro ou parte bem pequena de um todo muito maior que ela busca interpretar.
O corpo da criança, portanto, é um meio que ela mesma utiliza para a linguagem do brincar. Nada se aprende através do corpo. "É o corpo que aprende", como costuma dizer Paulo Fochi. Sem o corpo, o brincar se torna mecânico e conduzido. Sem esse corpo, presente e inteiro, não há integração, pois o verdadeiro brincar, na criança, é aquele que ela descobre nos caminhos da imaginação e da criação.
Até os seis anos, a criança encontra-se em um momento de muitas aquisições. Existe nela um corpo que se subjetiva em busca de identidade, um corpo que cresce numa velocidade incrível e que dessa forma busca equilíbrio, mas não apenas nos passos. Esse mesmo corpo busca a relação consigo e com o outro, a fim de se encontrar. Há ainda o corpo que busca as mais diversas linguagens, verbais ou não, para comunicar como a criança se apresenta ao mundo e se relaciona com ele.
Assim falamos de alma, de um corpo que ganha a visibilidade para si mesmo, e que vai conquistando processos, realizando descobertas e se manifestando a partir do que sente e do que encontra em todos que participam desse caminho. A alma, portanto, é essa construção da essência que se revela a cada momento.
A criança, aqui concebida como um sujeito de direitos, que tem o direito ao brincar, de corpo e alma, é protagonista de seus percursos quando acompanhada de adultos que acreditam nesse potencial inventivo, ativo e criativo que ela tem, é. A criação e a inventidade, vale dizer, só adentra o corpo pela experiência que a criança vivenciou. Portanto, a linguagem do brincar é a forma pela qual a criança se utiliza para comunicar seu modo de pensar o mundo. Assim ela nos mostra como interpreta o que vê e sente, um processo infindável de descobertas e que possibilita a construção de sua relação com o outro, o estar com o outro.
A linguagem do brincar de corpo e alma ganha sentido quando este é genuíno, permitindo o acesso à gramática da fantasia e a utilização de todo o seu repertório construído dentro da sua cultura familiar e dos espaços que frequenta. E mais: através do brincar, a criança pode ainda estabelecer relações entre seus percursos de vida e até mesmo reconstruí-los ou resignificá-los.
Quando falamos em gramática da fantasia, cabe aqui dizer que esse termo, na linguagem do brincar, é quase a revelação da alma, da essência. É quando a criança transforma uma concha do mar em avião, barco ou pássaro. Quando aquela concha vira, de fato, um avião, ainda que um pouco concha. Nesse gesto, a criança se transporta, ocupa um outro lugar, sai do real para o imaginário por alguns motivos, mas por dois, em especial: está inteira no processo e tem liberdade de movimento e pesquisa.

Grupo 2 e o jogo simbólico na Ateliê Carambola (Unidade 2 - Rua Jureia)
Como isso se dá? Bem, isso só é possível se ela estiver cercada de adultos que entendam esse processo e respeitem seu tempo. Brincar de corpo e alma pressupõe uma criança inteira em espaços planejados para que ela tenha escolhas que vão seguir em descobertas, hipóteses, teorias e criações. Brincar de corpo e alma pressupõe ter objetos que não transformem a criança em executora, mas sim em grande inventora. Logo, objetos que possibilitem a transformação para o simbólico, uma vez que a criança simboliza algo somente quando tem interiorizadas as experiências e convivências com outras crianças e/ou adultos nesses espaços saudáveis e genuínos.
Simbolizar é fazer uso de uma capacidade mental extremamente qualificada, é usar a mente para alcançar os mundos mais distantes sem "sair do lugar". Assim, quando uma criança brinca de corpo e alma, ela leva para dentro de si uma imagem que vai estar sempre com ela: um pouco da infância que carregamos a vida toda e que, por estarmos com ela de forma significativa, podemos acioná-la em muitos outros momentos da vida - até mesmo quando a realidade parece ser insuportável.
São as memórias dessa infância que nos darão apoio na vida adulta, em que o brincar permanece, mas de forma ressignificada.
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