A criança e o exercício de descoberta do mundo
O desejo de proteger os filhos pode criar a ilusão de que os pais podem controlar as experiências que as as crianças inevitavelmente vão vivenciar na descoberta do mundo
"Kaba Darebu" / Daniel Munduruku (texto) e Mathé (ilustrações)[/caption]
Nascer é a coisa mais sublime que existe. Nascer em uma aldeia indígena, então, é a mais prazerosa. Não que seja melhor ou pior do que nascer num centro urbano. É diferente. Ali todo mundo cuida de todo mundo e cada pessoa tem um papel importante na realização do outro. É uma verdadeira comunidade educativa onde não existe gente melhor que outra e todos educam todos.
Aos avós, cabe educar nosso espírito.
Fazem isso contando as histórias que alimentam nossa imaginação e nosso pertencimento ao mundo que nos rodeia. As histórias nos dizem de onde viemos e nos remete ao que somos. É importante não esquecermos que somos parte do universo, nem mais nem menos. Parte. As histórias não nos deixam esquecer que somos parceiros da Criação, portanto cabe a cada um cuidar, plantar, regar e colher, cumprindo seu papel no bem-estar de todos os viventes, sejam humanos ou não. São os avós que nos lembram isso o tempo todo. É papel deles. É seu propósito.
Cabe aos pais educar nosso corpo.
Fazem isso proporcionando todas as condições para que possamos ser livres. Andar no mato, subir na árvore, nadar no rio, atirar com arco e flecha, conhecer o lugar em que vivemos, catar nossos piolhos e puxar nossa orelha fazem parte de sua missão de adulto. Eles não nos deixam um só minuto sem sua atenção porque sabem que educar é cuidar do nosso corpo para que possamos ser plenamente crianças.
Ser criança é apenas ser criança.
É respeitar este momento único em nossa existência. Nossa gente sabe que não pode nunca desejar que sejamos outra coisa a não ser o que somos no momento presente. À criança nunca se pergunta o que vai ser quando crescer porque sabemos que ela não será nada, simplesmente porque já é tudo o que precisa ser. Ser criança é, portanto, tudo o que ela precisa ser. E o que toda criança precisa para ser plenamente criança? Brincar.
Brincar de corpo e alma numa profunda atitude de respeito ao momento que se vive, ao mundo à sua volta, às outras expressões e formas de vida que consigo interagem.
É assim que aprendemos numa aldeia. É assim que nos tornamos completos, equilibrados, sabedores da dinâmica da vida. E tudo isso sem deixarmos de ser criança. Porque, no fundo, ser criança é interagir com o lado mágico da vida, é abrir-se para o mistério que cerca a existência.
O corpo lúdico da criança é a garantia de uma vida adulta saudável. Felizmente, somente o brincar pode nos oferecer isso. Criança que não brinca, não cria. Criança que não brinca, copia.
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Foi só aos 40 anos que Claudia tirou da gaveta o sonho de ser professora. E hoje, 16 anos depois, além de dar aulas de redação, ela é criadora de um Clube do Livro em Caruaru (PE)
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