A criança e o exercício de descoberta do mundo
O desejo de proteger os filhos pode criar a ilusão de que os pais podem controlar as experiências que as as crianças inevitavelmente vão vivenciar na descoberta do mundo
Por Antonio Prata
Sou suspeito para escrever sobre João do pum. Não por ter qualquer relação especial com puns (longe de mim, imagina, que isso?!), mas por ter uma relação especial com o autor dos puns, quer dizer, com o autor do personagem que solta os puns: afinal, tanto eu quanto o João somos crias do escritor (e pai) Mario Prata. Eu, de carne e osso. O João, de papel e tinta. (E puns). Tendo esclarecido tal ponto, posso elogiar o livro à vontade, sem medo de ser acusado de nepotismo –ou de ficar com a mão amarela.

Dentre os muitos infantis do meu pai (ele os ia escrevendo conforme íamos crescendo), acho o João do pum (O homem que soltava pum, na versão de 1983), o melhor. Primeiro, o livro é muito engraçado. A repetição do cotidiano do João, tão parecido com o de todos nós, mas pontuado pelos "Pum! Pum! Pum!" funciona à exaustão. A criança vai virando as páginas ansiosa pra ver como é que aquele "defeito" vai modificar minimamente cada situação tão conhecida por ela. Mas o livro não fica só na repetição. A história tem uma trama muito bem sacada: a cidade está em perigo e o "defeito" do João se transforma na única arma capaz de salvá-la. No fim (lá vem spoiler), o que antes era motivo de riso vira motivo de orgulho.

Não é bem uma moral da história (dada a arma, "imoral da história" talvez fosse o termo mais correto), mas um alívio cômico (bota alívio nisso) muito bem vindo, na contramão da educação que as crianças recebem todo dia. "Não pode por o dedo no nariz!". "Não pode por a mão no pipi!". "Não pode cuspir!". "Não pode falar alto!". "Não pode correr dentro de casa!". "Não pode soltar pum!". Aí vem esse herói soltando puns a torto e a direito e mesmo assim (ou melhor, por isso mesmo) todo mundo gosta dele. A criança ouve a história e começa a perceber que a vida é cheia de contradições. Nada é escrito a ferro e fogo. Há que aprender a rir de tudo. Pensando bem, não são só as crianças que estão precisando ler mais livros como esses.

Já pensou numa continuação, Mario Prata?
PS: As ilustrações do Caco Galhardo são um prazer à parte, criando novas piadas e intensificando as que já existiam no texto. O Caco Galhardo não é meu parente, posso elogiar sem medo de ser acusado de nepotismo. Já sobre a mão amarela... Bom, quem nunca?
***
Antonio Prata nasceu em São Paulo, em 1977. Tem dez livros publicados, entre eles Meio intelectual, meio de esquerda (crônicas) e Felizes quase sempre (infantil, ilustrado por Laerte), ambos pela Editora 34. Escreve roteiros para televisão e cinema e mantém uma coluna no jornalFolha de S.Paulo, aos domingos.
O desejo de proteger os filhos pode criar a ilusão de que os pais podem controlar as experiências que as as crianças inevitavelmente vão vivenciar na descoberta do mundo
Foi só aos 40 anos que Claudia tirou da gaveta o sonho de ser professora. E hoje, 16 anos depois, além de dar aulas de redação, ela é criadora de um Clube do Livro em Caruaru (PE)
'A vovó da minha avó' e 'Nosso lago' trazem formas de lidarmos com a ausência que fica depois da morte - e mostram com delicadeza como honrar a memória dos que vieram antes de nós