A criança e o exercício de descoberta do mundo
O desejo de proteger os filhos pode criar a ilusão de que os pais podem controlar as experiências que as as crianças inevitavelmente vão vivenciar na descoberta do mundo
No segundo post do nosso Especial Dia da Consciência Negra, trazemos aqui uma conversa com a autora e artista plástica francesa Maté, que vive no Brasil desde 1979, e duas sugestões de leitura: "Krokô e Galinhola" (altamente recomendável pela FNLIJ) e "Galinhola e o Monstro Escamoso".
Relacionados com contos ou fábulas africanas, além de animais, amizade e aventura, esse são ótimos títulos para trabalhar a temática em casa ou sala de aula. "Acho o dia 20 de novembro um marco simbólico importante para uma questão que deveria ser trabalhada diariamente. O ideal seria que fosse um dia de confraternização através das mais diversas manifestações artísticas afro-brasileiras", diz a autora ao blog da Brinque-Book.
Leia a seguir a entrevista completa, e conheça assim a história desses dois livros.
Brinque-Book: "Krokô e Galinhola" e "Galinhola e o Monstro Escamoso" contribuem muito nesse papel que a literatura tem de fortalecer identidades e ampliar conhecimentos. O que pensa sobre isso?
Maté: Para lutar contra a discriminação, é fundamental valorizar a herança africana que é parte integrante da cultura brasileira. Como o preconceito nasce muitas vezes do medo do que é diferente ou desconhecido, procuro estimular a reflexão sobre a questão das diferenças de uma forma bem-humorada.
E o que os pequenos leitores podem descobrir nessas leituras? Lendo “Krokô e Galinhola”, baseado num conto tradicional africano, o pequeno leitor vai descobrir que até o grande crocodilo mal-encarado precisa respeitar a galinha-d'angola - já que, apesar de tantas diferenças, os dois são mesmo parentes. Em toda África a família é sagrada, é a base da sociedade. Gostaria que a leitura do meu livro levasse à seguinte reflexão: da mesma forma que as espécies animais estão interligadas pelos laços da evolução, a família humana também é uma só. A ciência já demonstrou que não existem raças diferentes, somente adaptações a ambientes diferentes. A arte africana também está muito presente nessa obra... Sim, para contextualizar a história de “Krokô e Galinhola”, ritmada pelas águas do rio Luvironza, inseri na paisagem motivos dos bordados tradicionais do povo Kuba. Acho importante divulgar a beleza da arte africana, presente em tantos museus pelo mundo afora, mas ainda pouco conhecida no Brasil. Porque a arte africana, com sua beleza e sofisticação, é um motivo de orgulho não só para os afrodescendentes, mas para toda a humanidade.
Da mesma forma, natureza, beleza e aparência estão presentes em "Galinhola e o Monstro Escamoso". Por quê?
Mais uma vez, a natureza é para mim uma grande fonte de inspiração e de reflexão. Em “Galinhola e o Monstro Escamoso”, apresento um animal muito raro e estranho da savana africana: o pangolim. Tudo o que é diferente e desconhecido assusta, mas com a Galinhola o pequeno leitor vai descobrindo que as aparências enganam. O terrível monstro escamoso é, na verdade, um bicho pacato, muito útil e amistoso. Nada como uma conversa franca para vencer o medo e as ideias preconcebidas de Galinhola e fazer nascer uma bela amizade.
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Maté, pensando em como apresentar essas histórias às crianças, acredita que os dois livros se prestam à teatralização. "As ilustrações são bastante ricas em detalhes e permitem fazer um bom exercício de leitura visual", diz a autora, indicando as fichas pedagógicas, elaboradas pela Alba Regina Spinardi, como ótimos modelos a serem trabalhados na sala de aula. Clique nas imagens de cada livro abaixo para visualizá-las em PDF e imprimir.
Ah, se quiser mais sobre o trabalho de Maté (como autora ou ilustradora), clique aqui para ver os livros publicados pela Brinque-Book, incluindo uma boa lista de lendas indígenas escritas por Daniel Munduruku. E se tiver alguma dica ou história para contar sobre esses livros, deixe aqui um comentário, para que outros pais e professores também possam se inspirar.
Até o próximo post da série, com "Escola de Chuva" e "Chuva de Manga", de James Rumford.
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