ERRATA: "Trincheira tropical", de Ruy Castro
Errata no livro "Trincheira tropical", de Ruy Castro, que narra a Segunda Guerra Mundial no Rio
Antônio Xerxenesky*

Vila-Matas muitas vezes foi chamado de “escritor para escritores”, por diversos motivos, sendo o mais óbvio o fato de que na sua obra a literatura se volta para si mesma e o ato de escrita é encenado e reencenado por atores e atrizes conhecidos, desconhecidos ou fictícios. No entanto, se ele merece tal epíteto, é por um motivo mais digno: Vila-Matas escancarou a crise da pós-vanguarda, o eterno: “o que fazer depois que tudo já foi feito?” que todo autor algum dia vivencia.
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Estamos em crise, estamos imersos na crise, desde o fim do modernismo. Vila-Matas acendeu a luz e mostrou que essa crise que nos cobria de água até a testa na verdade era uma Jacuzzi. Que delícia, a literatura acabou e bolinhas de sabão sobem até a superfície.
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Lars Iyer, no ensaio “Nu na banheira, encarando o abismo”: “(...) na obra de Vila-Matas, somente à beira do abismo conseguimos nos lembrar do que é intocável”. Esta é a tensão central de Bartleby e companhia: uma pulsão misteriosa que impele os escritores ao silêncio. Como resisti-la? Escrevendo. Mas toda a escrita é apenas notas de rodapé a um texto invisível.
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Ainda Iyer, falando de Bernhard: “(...) a ironia de Bernhard é que, enquanto seus narradores fracassam constantemente até para começar, o autor encontrou uma forma e uma maneira de se expressar. Seus músicos podem ter abandonado a música, e seus especialistas em música podem não conseguir escrever uma linha sequer sobre o tema, mas Bernhard compôs uma canção para si mesmo. Pode ser uma sinfonia grotesca, uma valsa ridícula, risível, burlesca e desumana, mas ainda assim há algo excitante – talvez até belo – na abnegação de sua música.” Que boa sinopse para as notas de rodapé a um texto invisível que compõem Bartleby e companhia.
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Em um dos livros da fase tardia de Vila-Matas, Não há lugar para a lógica em Kassel, que tive o prazer de traduzir, um alter ego do autor é convidado para um grande festival de arte contemporânea, onde acha, à primeira vista, que tudo é um engodo, antes de se deixar seduzir pela potência da arte conceitual. Uma das obras que mais o impressiona é uma instalação que consiste de uma sala com um sopro de ar, que ganha contornos metafísicos – é a pequena brisa que o move. Nessa cena, um caminho se descortina: a literatura como uma possibilidade infraleve.
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Desde que Vila-Matas sambou sobre o cadáver zumbi da literatura em Bartleby e companhia, muito aconteceu; o mundo se politizou e qualquer novo romance é vendido como “urgente” e “essencial para compreender o mundo atual”. Em todos os delírios sobre o futuro da literatura elaborados pelo catalão, isso nunca surgiu como uma possibilidade. Isso seria o peso, o retorno ao real. O caminho Vila-Matas virou o percurso menos trilhado: uma fusão da vida com a literatura na qual a vida se torna um conto de Robert Walser, em que um andarilho vaga pelas montanhas do interior da Suíça e contempla o horizonte de possiblidades. O nome desta cordilheira suíça é cânone modernista.
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Nos seus anos de formação, Vila-Matas supostamente alugou um quarto em Paris com Marguerite Duras, que falava um francês incompreensível pela bebedeira constante. Possível gênese de uma poética: um quartinho alugado no cérebro alcoolizado de Duras.
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Os acasos da vida me levaram a conhecer Vila-Matas em São Paulo e andar de táxi no banco de trás esmagado entre ele e a eterna Paula di Parma, a quem dedica todos seus livros. O que lembro dessa jornada automobilística de 2012, além do meu constrangimento de fã: Vila-Matas falando do quanto gostava de caminhar pelas ruas. Se não me engano, fez um trocadilho com “se hace camino al andar”, substituindo “camino” por “teoría”, mas a minha memória desse ano maluco é tão confiável quanto um narrador chamado Enrique Vila-Matas em um livro de Enrique Vila-Matas, e na verdade eu posso ter apenas distorcido uma frase de Perder teorías. De qualquer maneira, é uma boa história para contar para meu filho, quando ele entender algo além de “olha o aviãozinho”.
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Vila-Matas é especialmente sedutor para qualquer pessoa que estude literatura pelo viés acadêmico; ele parece demonstrar de forma didática todas as características do pós-modernismo: metaficção, autoficção, intertextualidade... Mas todos nós que já o colocamos no microscópio precisamos também aprender a nos afastar. Despidos de todo jargão implantado pelo crítico, seus livros escondem uma literatura humana, entusiasmada e às vezes comovente, por baixo da camada de citações.
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O primeiro romance de Vila-Matas, La asesina ilustrada, é um livro conceito que busca matar o leitor que chegar ao final de suas páginas. O livro enquanto arma – desde sua primeira prosa, o autor quis expandir os limites da literatura. Mas nada poderia estar mais longe de Vila-Matas do que a violência. Ele flertou com a negatividade e o silêncio em Bartleby e companhia, mas entre tantos descaminhos, sua literatura abraçou a vida e as possibilidades múltiplas da escrita.
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Estive em Barcelona em 2019 e a Barcelona que vivenciei não tem nada a ver com Vila-Matas dos livros. Vila-Matas diz ser catalão, mas cada vez mais acho que é uma de suas mentiras alegres. No fundo, Vila-Matas é um órfão argentino que aos 10 anos de idade invadiu a casa do falecido Macedonio Fernández e roubou suas anotações privadas, que impactaram seu cérebro infantil de maneira irreparável. Sabendo que todos seus leitores traçariam infinitas relações com Macedonio e Borges, decidiu mentir que mora na Catalunha, até alugou um apartamento no Bairro Gótico, e assim é visto como literatura europeia. Nós, latino-americanos, dizemos antes de dormir: “Vila-Matas é argentino e Ricardo Piglia era seu primo”. Se alguém ousa negar, citamos Sophie Calle de maneira descontextualizada. Acredite quem quiser.
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A quem se recomenda a leitura de Vila-Matas? Aos sem rumo, aos errantes. Não que ele sirva de bússola ou mapa. Vila-Matas vê que você está indo em certa direção, coloca sua cabeça apoiada em um taco e faz com que você gire e gire. Após se recuperar da tontura, tente andar em linha reta. Você vai continuar desorientado, mas encontrará cedo ou tarde um labirinto de espelhos, onde mais uma vez irá se perder. É preciso imaginar o leitor assim: perdido e contente.
Antônio Xerxenesky nasceu em 1984 em Porto Alegre, é autor dos romances As perguntas (2017), F (2014) e Uma tristeza infinita (no prelo).
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