ERRATA: "Trincheira tropical", de Ruy Castro
Errata no livro "Trincheira tropical", de Ruy Castro, que narra a Segunda Guerra Mundial no Rio

É domingo, acabo de almoçar e a cidade parece morta. Assento-me em uma poltrona na sala de estar. Passo a tarde inteira na poltrona, olhando para a parede. É pintada de branco a parede, mas reparando bem não é branco, pode ser cor de palha, ou areia, não sei. Se a luz cai, torna-se cinza, ocre, lilás. A superfície da parede está repleta de pequenas erosões, saliências, estrias. Nem preciso aproximar-me para notar. Na parte lateral da parede, pendurado no alto, está um quadro, uma pintura abstrata. Um círculo, borrões coloridos, um triângulo em profundidade. Se as paredes sonhassem, seria esse o seu sonho – a planura devastada pelo volume. No encontro da parede com a outra parede há uma planta, esguia, subindo do chão. Na outra parede começa a janela – meus olhos fogem dela, não querem se distrair. De vez em quando vem um ruído da rua, que de modo algum afeta a estabilidade da parede. A parede é firme. Sigo pela tarde olhando a parede, da poltrona da sala de estar. É estranha a parede como é estranha a palavra parede – repito-a inúmeras vezes do sofá. A parede não esboça reação, nenhum sinal de cansaço. Como pode uma parede, afinal, sobreviver tanto tempo? Como pode uma parede existir dessa maneira, com soberania e concretude, tantas horas, tantos dias, sem sumir, sem se contorcer, sem se esgotar? Fecho os olhos por um minuto, ergo ligeiramente as pálpebras – a parede continua lá. Suas rugas e o quadro, no mesmo lugar. Como pode a parede e sua substância manter-se assim ininterruptamente, sem intervalos, em estado de presença – sem fugir à própria duração? Muda a luz na sala de estar, a ilusão da cor, o corpo da parede não se interrompe. Como pode a matéria, afinal, uma parede ou criatura, não desligar-se de si mesma, não sair do próprio espaço e do tempo, de suas dimensões fatigantes, como pode não deixar de existir? A noite vem até minha poltrona, o mundo escurece na sala de estar. Várias vezes pressinto o momento em que a parede decairá. Mas é também esse o instante em que meu próprio corpo se ausenta. Uma conjunção de ausências – o acontecimento se repete, ad infinitum. Nunca posso testemunhá-lo.
Marcílio França Castro nasceu em Belo Horizonte, em 1967. Mestre em estudos literários pela UFMG, publicou, entre outros, Histórias naturais e Breve cartografia de lugares sem nenhum interesse, pelo qual recebeu o Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional.
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