ERRATA: "Trincheira tropical", de Ruy Castro
Errata no livro "Trincheira tropical", de Ruy Castro, que narra a Segunda Guerra Mundial no Rio

A José Mauro de Vasconcelos, que eu lia em voz alta, andando pelo longo corredor que dava para o quarto dos meus pais, imitando sotaque caipira; à coleção do Clube do Livro, que eu aguardava todo mês com ansiedade e que tinha livros de capa dura, guardados em envelopes que vinham no meu nome; à vizinha do apartamento 11, que sempre deixava a Folhinha do lado de fora do apartamento dela, para que eu o pegasse nos domingos de manhã; a Mary Poppins, que me fez sonhar em sair voando com ela num guarda-chuva pela janela de casa; a minha mãe, que todo domingo me levava ao cine Paissandu para ver matinê do Tom e Jerry e que depois me comprava um pastel de queijo e caldo de cana numa pastelaria; ao tio Arthur, que me deu de presente um livro grande e grosso de poesias para crianças, onde tinha o poema “Café com Pão”, do Manuel Bandeira; a minhas irmãs que, bem mais velhas, deixavam livros da faculdade espalhados pela casa, que eu folheava e às vezes lia inteiros sem entender nada, mas entendendo alguma coisinha; ao Riquinho e ao louco da turma da Mônica, cujos exageros hiperbólicos me espantavam; à mora Miriam, que ensinava o hebraico através de histórias da torá e que só aceitava o máximo dos alunos; ao Ichud Habonim, movimento judaico de esquerda, que me ensinou a não ter medo da noite nem das coisas noturnas; a Suely, com quem eu fingia que o rádio da casa dela era uma nave espacial; ao meu pai, que me levava para comer pão com linguiça e limonada na Rua São Bento; ao Equipe e ao Serginho Groisman, que me permitiram ver shows da Clementina, Nelson Cavaquinho, Gil, Caetano, Egberto, Hermeto, tudo ao vivo e quase de graça, na quadra da escola; ao Aguinaldo José Gonçalves, que me ensinou a ler “Momento num Café”, do Bandeira; ao próprio Manuel Bandeira, que sabia que humor e melancolia se dão muito bem e que, aliás, são amigos inseparáveis; ao Alcides Villaça, que me ensinou a ler tudo nas fontes originais e que o texto literário é bem mais importante do que aquilo tudo que se escreveu sobre ele; ao Zé Miguel Wisnik, que me ensinou que a subversão é, quase sempre, mais interessante do que a versão; aos sonhos, que, toda noite, diligente e pontualmente, bombeiam o dia de histórias; às pessoas que conversam sobre quaisquer coisas, em qualquer tempo e lugar, sobre todas as besteiras e coisas importantes da vida e que, por isso, falam coisas como “eu pelejo, pelejo, mas não alcanço mentir”, como me disse a Maria Xonada em Morro da Garça; aos escritores, mortos e vivos, amigos e não amigos, perto e longe, de agora e de antes, que enfrentam a lida dura de escrever porque sim e porque não, sem saber como e se serão recebidos e lidos, como sobreviverão ao dia seguinte, que se esgueiram pelas bordas da vida sem entender que merda estão e estamos a fazer, mas que, mesmo assim, se entregam ao ofício de falar sobre o que não existe para, quem sabe, melhorar o que existe.
Noemi Jaffe é escritora, professora e crítica literária. Escreveu Não está mais aqui quem falou, Írisz: as orquídeas e O que os cegos estão sonhando?, entre outros. Dá aulas de escrita em seu espaço, a Escrevedeira.
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