ERRATA: "Trincheira tropical", de Ruy Castro
Errata no livro "Trincheira tropical", de Ruy Castro, que narra a Segunda Guerra Mundial no Rio

A paisagem com a queda de Ícaro, de Pieter Brueghel (c. 1558)
Um dos conceitos mais fascinantes no campo das relações entre poesia e imagem é a figura da écfrase. Trata-se de um texto que descreve uma imagem. O recurso passou por muitas definições e foi se transformando conforme seus usos, desde a mais antiga écfrase de que se tem notícia (a descrição do escudo de Aquiles na Ilíada, de Homero), até os muitos experimentos feitos pela poesia moderna – de William Carlos Willians a Sylvia Plath, passando por Murilo Mendes.
Num estudo sobre a écfrase (na revista eLyra), Joana Matos Frias chama atenção para a prevalência, no conceito original, do visualizável sobre o visível. Ou seja, caberia destacar o modo como o texto dá a ver (em detrimento do objeto visto), ou sua capacidade relacional (e não só a possibilidade de “recolher imagens”). O que em última instância nos levaria a pensar no aspecto inerente ao processo da poesia, sua capacidade de produzir imagens.
Compartilho com o leitor duas écfrases interessantíssimas que parecem dialogar entre si. A primeira, de W.H. Auden, de 1938, em tradução de José Paulo Paes, sobre a tela “Paisagem com a queda de Ícaro”, de Brueghel (que abre esta postagem). O poema tem duas estrofes; a primeira mais meditativa sobre a natureza do sofrimento humano; a segunda focada na tela do artista flamengo.
Musée des Beaux Arts
No que respeita ao sofrimento, nunca se enganavam
Os Velhos Mestres: quão bem lhe compreendiam
A humana posição; de que maneira ocorre
Enquanto alguém está comendo ou abrindo uma janela
[ou somente andando ao léu;
Como, quando os de idade aguardam reverente, apaixonadamente
O milagroso nascimento, deve sempre haver
Crianças que não desejam particularmente que aconteça, patinando
Num lago junto à beira da floresta:
Eles jamais esquecem
Que mesmo o pavoroso martírio deve prosseguir seu curso
De qualquer modo num canto, nalgum lugar desasseado
Onde os cães levam sua vida canina e o cavalo do algoz
Raspa o traseiro inocente de encontro a uma árvore.
No Ícaro de Brueghel, por exemplo: como tudo volta as costas
Pachorrentamente ao desastre; o arador bem pode ter ouvido
A pancada n’água, o grito interrompido,
Mas para ele não era importante o malogro; o sol brilhava
Como cumpria sobre as alvas pernas a sumir-se nas águas
Esverdeadas; e o delicado barco de luxo que devia ter visto
Algo surpreendente, um rapaz despencando do céu,
Precisava ir a alguma parte e continuou calmamente a velejar.
A segunda écfrase, de 1959, é de Sylvia Plath (que foi aluna de Auden). O poema remete a outra tela de Brueghel, “O triunfo da morte” (imagem que fecha esta postagem). A tradução é minha.
Duas visões de uma sala de cadáveres
1.
No dia em que ela visitou a sala de dissecação,
Viu quatro homens deitados, escurecidos como peru queimado,
Já meio retalhados. Um vapor avinagrado
Dos tonéis da morte impregnava o ar.
Os rapazes de jaleco branco começaram a trabalhar.
A cabeça do cadáver a cargo dele estava deformada
E ela não conseguia discernir quase nada
Em meio aos destroços de crânio e couro gasto.
Um pedaço de fio amarelado atava os restos.
Em redomas de vidro, fetos com nariz de caracol pairam e brilham.
Ele arranca o coração e entrega a ela como se fosse uma relíquia partida.
2.
No cenário de Brueghel, feito de matança e fumaça,
só duas pessoas estão cegas para a tropa de carniça:
Ele, boiando no mar de cetim azul da saia
Dela, canta virado para o ombro nu
Da amada enquanto ela se inclina
Pra ele segurando uma partitura,
Ambos surdos ao violino nas mãos
Da cabeça da morte que ameaça seu canto.
O casal de Flanders está radiante; isso por enquanto.
A devastação, retida na tinta, ainda preserva esse mínimo espaço
insano e delicado no canto inferior direito da tela
Os dois poemas trabalham com uma espécie de “pedagogia do olhar”: dão a ver o detalhe, aquilo que está escondido. A tela de Brueghel citada por Auden traz em primeiro plano o arador trabalhando e um barco de luxo a velejar, mas o título remete à queda de Ícaro (o “desastre”) que precisa ser localizada na tela (uma perna dentro d’água no canto inferior direito?).
Já na tela de Brueghel com a qual Plath dialoga, o desastre, pelo contrário, está em todo canto (afinal, é “o triunfo da morte”), mas Plath procura ler o que está escondido em meio à carnificina, o que resiste a todas as coisas: o amor – encarnado no espaço de respiro dos amantes (também no canto inferior direito da tela) ou, na sala de dissecação, no gesto do amante que entrega a ela o coração arrancado de um cadáver. Em tempos mortíferos, talvez a única forma de seguir vivendo.

O triunfo da morte, de Pieter Brueghel (c. 1562)
Marília Garcia nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Publicou, entre outros, Um teste de resistores (7letras, 2014) e Câmera lenta (Companhia das Letras, 2017; vencedor do Prêmio Oceanos de Literatura 2018).
Errata no livro "Trincheira tropical", de Ruy Castro, que narra a Segunda Guerra Mundial no Rio
be rgb compartilha sobre seu processo ao longo da tradução de "O tempo das cerejas"
Meritxell Hernando Marsal compartilha sobre os desafios do processo de tradução de "O tempo das cerejas"