ERRATA: "Trincheira tropical", de Ruy Castro
Errata no livro "Trincheira tropical", de Ruy Castro, que narra a Segunda Guerra Mundial no Rio

Embora seja escritora – ou talvez por isso mesmo – sempre tive dificuldades com os códigos. Posso dizer que demorei uma vida inteira, cerca de 60 anos, para aprender como, quando e, principalmente, de que forma utilizá-los de maneira equilibrada. Sempre me senti como uma exilada ou estrangeira, errando as falas, dizendo o que não devia ou no momento errado ou para a pessoa errada ou do jeito errado. Oscilava entre uma sinceridade desnecessária, que podia magoar o interlocutor; uma espontaneidade exagerada, que soava inadequada para certas circunstâncias; um uso de termos rebuscados em situações coloquiais ou o contrário e entre a maneira como me dirigia impertinentemente a pessoas importantes, com excesso de familiaridade e a famosa “cara de pau”. Sofri muito por esses deslizes e, por outro lado, também conquistei coisas inesperadas e surpreendentes. Sempre fui considerada meio louca e as pessoas com quem convivo se acostumaram – quando gostam de mim – com um jeito estabanado e “poético”. As que não gostam só reiteram sua impressão de que sou meio esquisita. Agora, aos sessenta anos, percebo que estou aprendendo melhor os truques da contenção, dos silêncios e das horas certas. É difícil, cansativo, mas bom. Tem me causado menos problemas e não preciso abrir mão do meu “gauchismo” por causa disso.
Mas nunca pude imaginar que não saberia, em absoluto, reconhecer códigos da minha língua. O que tem acontecido, nos últimos três anos, no governo desse proto- Coringa, é que a língua se rompeu: não se trata mais de um código comunicativo, informacional, estético, intelectual e afetivo. A língua, agora, é, ela também, não mais do que uma arma. Apontam-se as palavras, atira-se na direção do alvo e matam-se ou ferem-se os interlocutores. A língua se tornou violência e máscara. Pior: máscara da máscara. É como se tivessem sido extintos os trocadilhos, as ambiguidades, as metáforas, as nuances, as camadas múltiplas de significação. Na língua-espingarda, o que conta é a mira. Um mundo sem nuances é um mundo sem linguagem e um mundo sem linguagem é a morte do humano. A sensação que tenho é a de que até o fake é fake e que a metáfora se transformou em uma caixa de Pandora, de onde só saem monstros caretas e pérfidos. A possibilidade da palavra de transformar corpos e mentes, de revelar e inaugurar nomes e coisas parece ter murchado e a palavra assiste, pasma, ao poder tomar o lugar da potência.
Meus amigos e família me advertem: não é possível continuar se assombrando diariamente, se já se sabe qual é o jogo. Nada mais deveria me surpreender. Mas não adianta. Sigo pasmada, não diariamente, mas a cada hora, com mais um novo assassinato do que, para mim, significa a comunicação. Eu, sempre atrás de etimologias, sempre buscando formas possíveis de superar o vazio entre palavra e coisa, assisto incrédula ao rasgo irreversível entre ética e estética, entre origem e uso, entre significado e significante. A língua se tornou pura arbitrariedade e tudo pode ser tudo: democracia pode querer dizer ditadura, liberdade pode querer dizer prisão e verdade pode querer dizer mentira. A língua a serviço. Ela, que deve ser a fonte da não servidão.
E agora? Que códigos, que palavras nos restam? O grito, o silêncio, a continuidade da minha, da nossa busca poética? Não sei. Sei que vínculos e teias precisam ser mantidos e que o agora é mais importante do que o futuro, nesse momento. Vou pelos deslocamentos, pelos cantos e pelos furos, armando diálogos e sonhando, como Cortázar, em arrebentar a cabeça desses bichos medrosos e friorentos que moram dentro, mas principalmente fora de mim.
Noemi Jaffe é escritora, professora e crítica literária. Escreveu Não está mais aqui quem falou, Írisz: as orquídeas e O que os cegos estão sonhando?, entre outros. Dá aulas de escrita em seu espaço, a Escrevedeira.
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