ERRATA: "Trincheira tropical", de Ruy Castro
Errata no livro "Trincheira tropical", de Ruy Castro, que narra a Segunda Guerra Mundial no Rio

A primeira coisa que se vê ao sair da curva é a casa elevada no bojo da pedra. Pode estar suspensa, pode estar encravada. Às vezes se confunde com a pedra, às vezes escapa dela e brilha. É sempre uma visão de relance, ligeira, pois imediatamente vem outra curva e a casa já ficou para trás. Não há como parar. Cada viajante faz um comentário, são várias as maneiras de perceber a casa. Dizem que parece castelo, que é um cubo, um quadrado; que deve ser quente, inacessível, que destoa da vegetação. Alguns ouvem um zumbido que viria dela, o eco de um diapasão. Uns veem janelas, a fachada de vidro, outros não veem nada. Já notaram uma torre, uma águia pousada no cume. Falaram de um jardim no teto, de uma placa solar. A casa é branca, é amarela, é laranja, é dourada. É cor de chumbo, cinza, lilás. Depende do dia, das nuvens, do ângulo do sol. Eu próprio já passei pela curva e dei de cara com a casa. Achei-a resplandecente, senti vontade de descer e abraçá-la, de me esquentar no sol que ela devolve. Por um segundo, tive vontade de ser a casa. Todo dia passam centenas de carros diante da casa, entre as curvas da estrada. Cada viajante leva na retina um reflexo de sua forma. A casa não é uma casa, é um estilhaço na memória do viajante. Seria preciso reunir todos eles para desenhá-la. Nunca serão suficientes para completá-la.
Marcílio França Castro nasceu em Belo Horizonte, em 1967. Mestre em estudos literários pela UFMG, publicou, entre outros, Histórias naturais e Breve cartografia de lugares sem nenhum interesse, pelo qual recebeu o Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional.
Errata no livro "Trincheira tropical", de Ruy Castro, que narra a Segunda Guerra Mundial no Rio
be rgb compartilha sobre seu processo ao longo da tradução de "O tempo das cerejas"
Meritxell Hernando Marsal compartilha sobre os desafios do processo de tradução de "O tempo das cerejas"