ERRATA: "Trincheira tropical", de Ruy Castro
Errata no livro "Trincheira tropical", de Ruy Castro, que narra a Segunda Guerra Mundial no Rio

Foto por Matt Alaniz /Unsplash
Uma chuva fina cai e vejo os pingos verticais e espaçados entre as lâminas da persiana. No meio deles também caem pétalas roxas esparsas, vindas da sibipiruna do quintal. Numa das árvores, as goiabas balançam junto com os galhos. Toda a vegetação sacode de leve e a chuva engrossa, com os pingos se espatifando ao tocarem o muro de tijolos. Vista assim, intervalada pela persiana, a paisagem parece dividida em gavetas. Ao longe, um trovão ressoa fraco, mas constante. Não sei se é um ou se são vários. No quarto ao lado, ouço falas de uma aula online e, da rua, alguma locução de rádio.
Ia escrever sobre o desassossego dos nossos corpos e mentes, sobre o constrangimento de ouvir e ver a deslinguagem do presidente, mas me detive olhando a chuva. Um ou outro pássaro corta o quintal, parecendo apressado. Pelo vidro da janela, as sombras de outras árvores também se agitam de lá para cá, de cá para lá.
Não tenho mais conseguido cultivar o equilíbrio necessário para lidar com a loucura desse país. Me sinto em estado de dissociação, nem mais alternando, mas sentindo simultaneamente ódio e força de vontade, impotência e desejo, desespero e esperança. Faço coisas pequenas – cozinhar, desenhar, escrever diários, limpar – com esmero. Tento fazer alguma coisa um pouco mais significativa – um livro, uma ação de caráter social – e isso fortalece um pouco. Logo passa. No plano coletivo, nacional, sucumbo.
A chuva já enfraqueceu e engrossou algumas vezes e alguns sabiás pousaram na grama. Procuro por sinônimos de “sacudir” para não repetir a palavra ao falar das folhas e galhos e leio: “chacoalhar”, “abanar”, “sacolejar”, “oscilar” e a desconhecida “ventanear”. Nem preciso usá-las; elas me alegram apenas por existirem.
Enquanto escrevo e contemplo, penso que o caminho é a concretude. O desassossego é real, mas tão abstrato que imobiliza e, imobilizado, se auto alimenta.
A chuva não cessou completamente, mas serenou e sobram poucos pingos tão finos, que mal posso vê-los. Agora resta mais o piso molhado, poucas pétalas caindo por inércia e mais silêncio no quintal.
Noemi Jaffe é escritora, professora e crítica literária. Escreveu Não está mais aqui quem falou, Írisz: as orquídeas e O que os cegos estão sonhando?, entre outros. Dá aulas de escrita em seu espaço, a Escrevedeira.
Noemi Jaffe é escritora, professora e crítica literária. Escreveu Não está mais aqui quem falou, Írisz: as orquídeas e O que os cegos estão sonhando?, entre outros. Dá aulas de escrita em seu espaço, a Escrevedeira.
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