ERRATA: "Trincheira tropical", de Ruy Castro
Errata no livro "Trincheira tropical", de Ruy Castro, que narra a Segunda Guerra Mundial no Rio
Foto: Tony Webster
Sobre a tirania nasceu em um post no Facebook. Dias após a eleição de Donald Trump, o historiador Timothy Snyder postou um texto que rapidamente foi compartilhado por dezenas de milhares de pessoas. Ele começava assim: "Não somos mais sábios do que os europeus que viram a democracia dar lugar ao fascismo, ao nazismo ou ao comunismo no século XX. Nossa única vantagem é poder aprender com a experiência deles".
A partir dessas palavras, Snyder apresentava vinte lições tiradas do século XX e adaptadas para o mundo de hoje para combater a tirania, usando o passado para evitar que seus erros se repitam no futuro. Snyder, então, resolveu aprofundar suas lições, e assim surgiu Sobre a tirania, um livro curto, para ser lido numa sentada, mas que é imprescindível para os atribulados dias atuais, quando as opiniões se dividem e os fatos são trocados por meias-verdades.
Um dos temas que o historiador aborda no livro, e também um dos mais debatidos após a eleição de Trump, é a "pós-verdade". Com uma eleição marcada pela disseminação de notícias falsas que se espalharam rapidamente pela internet, a discussão sobre como consumimos e espalhamos informação se acentuou. Em entrevista para a Veja, Timothy Snyder disse que o acesso aos fatos é um dos temas mais delicados da atualidade: "Fala-se muito em pós-verdade, quando as pessoas só leem na internet aquilo que comprova suas visões de mundo. Temos lidado com essa tendência como se fosse um problema novo, pós-moderno. Não é novo, e é essencialmente um perigo. A pós-verdade está nas origens do fascismo".
A seguir, leia um trecho de Sobre a tirania em que Snyder aprofunda sua reflexão sobre a verdade.

Renunciar à diferença entre o que se quer ouvir e o que de fato é verdadeiro é uma maneira de se submeter à tirania. Essa recusa à realidade pode parecer natural e agradável, mas o resultado é o seu fim como indivíduo — e, assim, o colapso de qualquer sistema político que dependa do individualismo. Segundo constataram os estudiosos do totalitarismo, como Victor Klemperer, a verdade morre de quatro modos, e acabamos de ver todos eles.
O primeiro modo é a hostilidade aberta à realidade verificável, apresentando invenções e mentiras como se fossem fatos. O atual presidente dos
Estados Unidos faz isso com uma frequência elevada e num ritmo intenso. Durante a campanha de 2016, uma pesquisa sobre seus pronunciamentos detectou que 78% de suas declarações factuais eram falsas. Essa proporção é tão alta que faz com que suas afirmações corretas pareçam descuidos involuntários no caminho que leva à ficção total. Ignorar o mundo real dá início à criação de um antimundo ficcional.
O segundo modo de assassinar a verdade é o encantamento xamanista. Como notou Klemperer, o estilo fascista baseia-se na “repetição interminável”, destinada a tornar o ficcional plausível e a conduta criminosa, desejável. O uso sistemático de apelidos como “Ted Loroteiro” e “Hillary Fajuta” substitui certos traços de caráter que poderiam ser, com mais propriedade, atribuídos ao próprio presidente. Entretanto, mediante uma repetição embotadora no Twitter, o presidente americano conseguiu transformar indivíduos em estereótipos, aos quais muitas pessoas aderiram em altos brados. Em comícios, os gritos repetidos de “Construa esse muro” e “Ponha-a na cadeia” não descreviam nada que o presidente tivesse planos específicos para fazer, mas sua fanfarrice criava uma conexão entre ele e seu público.
O terceiro modo é o pensamento mágico ou a adoção aberta da contradição. A campanha do presidente envolveu promessas de redução de impostos para todos, eliminação da dívida pública e aumento dos gastos em políticas sociais e defesa nacional. Essas promessas estão em clara contradição umas com as outras. É como se um fazendeiro dissesse que vai pegar um ovo no galinheiro, primeiro cozinhá-lo e servi-lo à sua mulher, depois fritá-lo e servi-lo aos filhos e, por fim, devolvê-lo ao galinheiro intacto e vigiá-lo até que o pintinho nasça.
Aceitar inverdades tão radicais exige um abandono flagrante da racionalidade. As narrativas de Klemperer sobre como perdeu amigos na Alemanha, em 1933, devido a discussões sobre o pensamento mágico parecem hoje assustadoramente atuais. Um de seus ex-alunos fez-lhe um apelo para “confiar em seus sentimentos, e sempre se concentrar na grandeza do Führer, e não no incômodo que está sentindo no momento”. Doze anos mais tarde, após todas as atrocidades e no fim de uma guerra que a Alemanha tinha claramente perdido, um soldado amputado disse a Klemperer que Hitler “nunca disse uma só mentira. Eu acredito em Hitler”.
O último modo é a exploração indevida da fé. Isso envolve tipos de afirmações autodivinizantes que o presidente fez ao dizer “Só eu posso resolver isso” ou “Eu sou a voz de vocês”. Quando o sentimento de fé se desloca dessa maneira do céu à terra, não sobra espaço para as pequenas verdades de nosso discernimento e experiências individuais. O que aterrorizava Klemperer era a maneira como essa transição parecia definitiva. Depois que a verdade se tornava oracular, em vez de factual, as evidências eram irrelevantes. No fim da guerra, um trabalhador declarou a Klemperer que “compreender é inútil, é preciso ter fé. Eu acredito no Führer”.
De 10 a 18 de junho, no Conjunto Nacional, em São Paulo, acontece a exposição "Sobre a tirania - 20 cartazes para enfrentar os desafios do presente", inspirados nas lições de Timothy Snyder e criados por renomados desingers na Oficina Tipográfica São Paulo. A abertura da exposição acontece no sábado, dia 10, às 16h.
[TAG-galeria-0008]
Sobre a tirania chega às livrarias no dia 5 de junho e já está em pré-venda.
Errata no livro "Trincheira tropical", de Ruy Castro, que narra a Segunda Guerra Mundial no Rio
be rgb compartilha sobre seu processo ao longo da tradução de "O tempo das cerejas"
Meritxell Hernando Marsal compartilha sobre os desafios do processo de tradução de "O tempo das cerejas"