ERRATA: "Trincheira tropical", de Ruy Castro
Errata no livro "Trincheira tropical", de Ruy Castro, que narra a Segunda Guerra Mundial no Rio

A arte imita a vida, mas a ficção também pode ajudar a entender a realidade. Segundo editores, as vendas de 1984, de George Orwell, cresceram nos Estados Unidos após a posse de Donald Trump, esgotando as edições no país. O evento foi marcado por polêmicas. Além dos protestos que tomaram as ruas de Washington e outras cidades norte-americanas, alegações do próprio presidente e sua equipe levantaram discussão. Os paralelos entre a atual situação política dos EUA e o livro de Orwell foram reforçados no último domingo, quando Sean Spicer, porta-voz da Casa Branca, alegou que a posse de Trump teve o maior público da história - enquanto imagens mostram justamente o contrário. Kellyanne Conway, a conselheira do presidente, tentou atenuar as afirmações de Spicer dizendo se tratar de "fatos alternativos".
Ao pensar em fatos alternativos e na "pós-verdade", uma das palavras de 2016 segundo a Universidade de Oxford, lembramos também da Novafala de 1984. Publicada originalmente em 1949, a distopia futurista é um dos romances mais influentes do século XX, um inquestionável clássico moderno. O livro acompanha Winston, um homem aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder cínico e cruel ao infinito, além de vazio de sentido histórico. Algumas das ideias centrais do livro dão muito o que pensar até hoje, como a contraditória Novafala imposta pelo Partido para renomear as coisas, as instituições e o próprio mundo, manipulando ao infinito a realidade para se manter no poder.
É daí que surge o "duplipensar", ação do livro de Orwell que tanto se assemelha com as falas de Donald Trump.
“Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado”, rezava o lema do Partido. E com tudo isso o passado, mesmo com sua natureza alterável, jamais fora alterado. Tudo o que fosse verdade agora fora verdade desde sempre, a vida toda. Muito simples. O indivíduo só precisava obter uma série interminável de vitórias sobre a própria memória. “Controle da realidade”, era a designação adotada. Em Novafala: “duplipensamento”.
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Duplipensamento significa a capacidade de abrigar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias e acreditar em ambas. O intelectual do Partido sabe em que direção suas memórias precisam ser alteradas; em consequência, sabe que está manipulando a realidade; mas, graças ao exercício do duplipensamento, ele também se convence de que a realidade não está sendo violada. O processo precisa ser consciente, do contrário não seria conduzido com a adequada precisão, mas também precisa ser inconsciente, do contrário traria consigo um sentimento de falsidade e, portanto, de culpa. O duplipensamento situa-se no âmago do Socing, visto que o ato essencial do Partido consiste em usar o engodo consciente sem perder a firmeza de propósito que corresponde à total honestidade. Dizer mentiras deliberadas e ao mesmo tempo acreditar genuinamente nelas; esquecer qualquer fato que tiver se tornado inconveniente e depois, quando ele se tornar de novo necessário, retirá-lo do esquecimento somente pelo período exigido pelas circunstâncias; negar a existência da realidade objetiva e ao mesmo tempo tomar conhecimento da realidade que negamos — tudo isso é indispensavelmente necessário. “Mesmo ao usar a palavra duplipensamento é necessário praticar o duplipensamento. Porque ao utilizar a palavra admitimos que estamos manipulando a realidade; com um novo ato de duplipensamento, apagamos esse conhecimento; e assim por diante indefinidamente, com a mentira sempre um passo adiante da verdade. Em última instância, foi graças ao duplipensamento que o Partido foi capaz — e, até onde sabemos, continuará sendo por milhares de anos — de deter o curso da história.
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