ERRATA: "Trincheira tropical", de Ruy Castro
Errata no livro "Trincheira tropical", de Ruy Castro, que narra a Segunda Guerra Mundial no Rio

O grande nome da crônica não poderia ficar de fora do Jabuti. Luis Fernando Verissimo ganhou o segundo lugar na categoria Contos e Crônicas com As mentiras que as mulheres contam, lançado em 2015 pela Editora Objetiva.
As mentiras que as mulheres contam é a resposta do próprio Verissimo ao livro As mentiras que os homens contam, lançado em 2000. Em entrevista para a revista Época, o autor comentou sobre o grande intervalo entre os lançamentos dos dois títulos: "Quando saiu o As mentiras que os homens contam me perguntavam quando sairia um livro sobre as mentiras das mulheres e eu brincava que seria um livro grosso e caro demais. No fim, os dois livros ficaram mais ou menos do mesmo tamanho."
Tudo começa com a mãe, com o “Olha o aviãozinho!” à mesa do almoço. É a mentira inaugural, que vai se desdobrando em outras ao longo da vida. Nem sempre a ideia é disfarçar um caso ou ocultar um segredo. Por vezes são apenas eufemismos, ambiguidades, desculpas educadas — tudo com o objetivo um pouco mais nobre de preservar a harmonia social. Na coletânea ainda aparecem, por exemplo, a senhora que tenta enganar a si mesma fazendo uma plástica atrás da outra e a moça que mente a idade — para mais! — apenas para ouvir que ainda está nova. Há dramas, comédias, tragicomédias — e até histórias que terminam em tragédia. Mas tudo permeado pelo humor irresistível de Verissimo.
Leia uma das crônicas de As mentiras que as mulheres contam.
Recordação
Ele tinha concordado com a redecoração do apartamento porque a mulher, coitada, fizera cinquenta anos e a plástica não resolvera nada. Quer dizer, ela ficara com a pele esticada e os olhos mais puxados,
mas continuava com cinquenta anos. E começara a olhar em volta, à procura de outras coisas para mudar. Já que tinha que envelhecer, era injusto que as coisas ao seu redor ficassem como estavam. Decidiu mudar
toda a decoração do apartamento.
Quando ele chegou em casa, naquele dia, encontrou o decorador na sala, sentado na ponta de uma poltrona com os pés juntos. O nome do decorador era Ubirici, mas todos o chamavam de Ubi.
— O Ubi tem ideias ótimas — disse ela.
— Espero que, além de ótimas, não sejam caras — brincou ele.
O Ubi nem sorriu. Aliás, o Ubi nem olhara para ele, desde que ele entrara.
— Vamos mudar tudo — anunciou a mulher.
— Meu escritório também?
— Começando pelo seu escritório.
— Mas, querida…
— Já vou — disse o Ubi, pulando da cadeira como se tivesse sido espetado.
— Espere! — disse ela. — Nós ainda não decidimos o que fazer nesta sala.
O Ubi suspirou. Está bem. Ficaria. Começou a circular pela sala, acompanhado pela mulher.
— Estas cortinas, claro, saem. São muito pesadas para o tamanho da sala.
— Sim, Ubi — disse ela, olhando para o marido com uma expressão de “Viu como ele entende?”.
— A primeira coisa que nós vamos fazer é mudar a cor do tapete. Tem que ser mais claro. Mais moderno.
— Certo.
— Este vaso sai.
— Mas esse é um…
— Eu sei o que é. Não senta com a decoração que eu estou imaginando. Sai.
— Sim, Ubi.
— Este quadro, fora. Esta mesa, muito rococó. Vamos botar uma baixinha, com tampo de vidro. Esta poltrona, fora.
Era a poltrona em que ele estivera sentado, com evidente desgosto.
E então o Ubi parou na frente dele.
— Este marido…
Até a mulher se assustou.
— O que tem ele?
— Não combina com o esquema que estou imaginando.
— Mas…
— Fora.
— Mas, Ubi!
— Precisamos de um mais liso e comprido.
A mulher desistiu da decoração e decidiu fazer outra plástica. Afinal, botox não deixava de ser uma espécie de redecoração, e muito mais barata. Mas de vez em quando, olhando o marido, ela ainda suspira
e se pergunta se fez a escolha certa.
Errata no livro "Trincheira tropical", de Ruy Castro, que narra a Segunda Guerra Mundial no Rio
be rgb compartilha sobre seu processo ao longo da tradução de "O tempo das cerejas"
Meritxell Hernando Marsal compartilha sobre os desafios do processo de tradução de "O tempo das cerejas"