Projeto Bonde das Estrelas: a mediação de leitura como experiência coletiva e de afeto
Ler de forma coletiva. Transformar a experiência literária em uma vivência autoral. O projeto expande o conceito de acesso aos livros e dá voz às crianças
Um novo ano letivo começa e é hora de pensar no planejamento de leituras.
A pergunta é: por onde começar?
Cada coordenador pedagógico e professor tem seu próprio processo para selecionar os livros e desenhar o percurso das leituras que serão realizadas ao longo do ano que, por sua vez, seguem as dinâmicas de cada escola. Mas há alguns fatores que precisam ser levados em conta.

Um dos principais é pensar em como esse planejamento de leitura se conecta a uma formação progressiva do leitor dentro da escola. Isso implica em considerar como articular as habilidades que precisam ser desenvolvidas com temáticas e eixos específicos. Nesse arranjo, os livros podem ser excelentes disparadores de temas que muitas vezes se conectam a projetos de diferentes áreas, além das linguagens e também podem apoiar o trabalho com temas transversais, como as competências socioemocionais, diversidade cultural, direitos das crianças, para citar alguns dos temas transversais, previstos na BNCC, a Base Nacional Comum Curricular.
Especificamente para o planejamento das leituras do ano letivo de 2026, a editora da Companhia na Educação, Rafaela Deiab, indica alguns temas que podem pipocar na sala de aula e se conectar aos livros: “A questão da sustentabilidade e da emergência climática continua forte. E a própria discussão sobre a diversidade das autorias para formação de repertório. A inclusão de autores indígenas e negros é muito importante”, ressalta a editora.
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Para o educador Helder Guastti, que dá aulas na Educação Básica e também cuida de uma biblioteca comunitária na Cidade de João Neiva (ES), a literatura permeia tudo. “Tanto para as ações na escola quanto para as ações do Espaço de Leitura, tento criar um Plano de Ação Anual, contendo as atividades, ações e projetos que eu gostaria de realizar, contemplando tanto as ações institucionais e permanentes quanto aquelas que quero desenvolver autonomamente”, relata. Ele apresenta o plano de ação à equipe gestora, mas também aos estudantes e famílias, para receber as contribuições de todos.
“Tento também deixar planejadas as primeiras leituras do ano, considerando o primeiro trimestre, tendo em vista a progressão gradual das leituras, bem como a diversidade de temas, formatos, suportes e estilos das obras a serem lidas. Busco sempre utilizar o primeiro trimestre como o momento para repertoriar as crianças, de acordo com o que eu considero fundamental nas práticas leitoras”, conta Helder. “A partir do segundo semestre, quando as crianças já estão mais familiarizadas com a mediação de leitura e com as inúmeras possibilidades de se debruçar nas obras literárias, partimos para o desenvolvimento de projetos mais robustos e complexos envolvendo a leitura literária”, conclui.
No Colégio Sidarta, de São Paulo (SP), o currículo da área de Língua Portuguesa é literário, como explica a coordenadora de Língua Portuguesa de Ensino Fundamental 1 e coordenadora da frente de Ciência das Linguagens, Camila Castilho: “O projeto de leitura é estruturante de todo o currículo, que é todo pautado em uma proposta literária. Isso quer dizer que as sequências didáticas são elaboradas a partir do livro literário”. Nessa configuração, são os próprios professores que produzem os materiais didáticos.
Para a coordenadora, o planejamento das leituras deve ser pensado como uma triangulação entre o tema norteador - que é o eixo que une diferentes áreas como meio-ambiente ou diversidade -, o gênero literário (poesia, cordel, crônica) e os objetivos de aprendizagem a serem alcançados, todos com o mesmo peso e a serem trabalhados coletivamente. Dentro do campo artístico-literário, dentro de Língua Portuguesa, o ponto de partida para a escolha dos livros é o tipo de gênero a ser trabalhado. Se é poesia, parte-se de uma poesia. Se é conto, de um conto.
Mas, mesmo quando o trabalho é dentro de outro campo, como o jornalismo, o ponto de partida é sempre um texto literário, que atua como disparador do tema. Para o 3º ano do Fundamental, por exemplo, a BNCC prevê algumas habilidades que trabalham com textos publicitários, como a EF03LP21 que propõe: “Produzir anúncios publicitários, textos de campanhas de conscientização destinados ao público infantil, observando os recursos de persuasão utilizados nos textos publicitários e de propaganda (cores, imagens, slogan, escolha de palavras, jogo de palavras, tamanho e tipo de letras, diagramação).” “Os estudantes desenvolveram uma campanha publicitária de conscientização, que era o gênero a ser trabalhado, de acordo com o tema que é meio-ambiente. Para isso, o disparador foi o livro Meninos do mangue (Companhia das Letrinhas, 2021) [de Roger Mello]. As crianças discutiram a temática, relacionaram com o princípio norteador, e desenvolveram sua própria campanha. Foi muito bacana porque elas usaram esse recurso de sensibilização do texto publicitário para chamar todo mundo da escola para um mutirão de limpeza”.
O nosso desafio é não escolarizar a literatura nem usá-la com um foco instrumental. Não é que isso não pode acontecer de jeito nenhum, mas há formas como a literatura pode estar presente, pode contribuir para desenvolvimento de habilidades e para as propostas, sem ser usada de uma maneira escolarizante. Por exemplo, não vou ler um livro sobre uma criança indisciplinada para que a criança indisciplinada se reconheça”, Camila Castilho
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Camila ressalta a importância de deixar que os educadores sejam protagonistas desse planejamento de leituras. “É uma premissa que os professores escolham os livros que eles vão trabalhar”, ressalta. No Colégio, os livros costumam fazer parte dos planos de leituras durante três anos - um período suficiente para que os professores também se sintam mais confortáveis em trabalhar com as obras, mas não longo demais. “Os livros têm que fazer sentido para os professores e para os alunos”, destaca.
Os alunos, aliás, também têm espaço para trazer livros que gostariam de trabalhar na escola. Ao longo do semestre, eles podem escolher um livro e trazer para que a leitura do primeiro capítulo seja feita em sala. Ano passado, Diário de Pilar na Amazônia (Pequena Zahar, 2023) [de Flávia Lins e Silva e Joana Penna] foi apresentado à sala em uma dessas leituras e, este ano, faz parte do planejamento. “As crianças gostaram, mas o professor tem que escolher também, porque quem vai fazer a mediação é que precisa se sentir confortável”, pondera a coordenadora.
Ela também conta que, em paralelo com as atividades que fazem parte das sequências didáticas, no Colégio Sidarta, os estudantes também têm o Diário do leitor, que é diferente de um caderno de Língua Portuguesa. Nele, há mais de 30 perguntas abertas - como ‘O que você sentiu quando terminou a leitura?’ ou ‘ Você se identificou com algum personagem?’ - que conduzem os estudantes a um exercício de reflexão e fruição das leituras.
Nunca é demais lembrar ainda que ler junto e conversar sobre os livros é uma maneira de formar leitores e estimular a leitura como prática. E que a BNCC propõe diversas iniciativas que também podem - e devem! - fazer parte do planejamento de leituras, como a criação de clubes de leitura, seminários, debates. Há muitas formas de fazer com que a leitura se transmute de atividade solitária e silenciosa para uma prática coletiva.
E, por último, educador(a), não se esqueça: o planejamento das leituras não está escrito em pedra. “O planejado nunca fica igual ao realizado”, admite Camila. E, ao longo do ano é desejável, e até natural que o planejamento seja revisto. “Revisito o Plano de Ação ao longo do ano, replanejando sempre que necessário e contando com as participações das crianças no desenvolvimento de novas atividades e propostas”, conta Helder.
Prontos e prontas para planejar os percursos de leitura deste ano?
(Texto Naíma Saleh)
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