Literatura para bebês: ludicidade e afeto
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Você já deve ter se deparado com um monte de pesquisas incentivando a leitura para bebês e anunciando os múltiplos benefícios de incorporar os livros à rotina dos pequenos desde muito cedo. Isso porque, no comecinho da vida, experiências e estímulos têm um impacto enorme na forma como as estruturas cerebrais se consolidam. É o que se chama de neuroplasticidade, nome dado à forma como o cérebro vai se moldando e criando novas conexões à medida em que responde a estímulos e experiências. É por isso que tantas pesquisas mostram que ler para bebês pode estimular o desenvolvimento da linguagem - tanto expressiva, ou seja, na forma como a criança manifesta, quanto receptiva, na forma como ela entende. Pode também ajudar a ampliar o vocabulário. E até ser um preditor do desenvolvimento escolar.

Ilustração de Boa viagem, bebê! (Companhia das Letrinhas, 2025), de Beatrice Alemagna
Mas ler para bebês é mais do que isso. É sobretudo uma experiência afetiva, de fortalecimento de relações. “Quando um bebê escuta a voz de quem ama lendo para ele, associa leitura a afeto, a aconchego. E isso é uma base poderosíssima para que, lá na frente, a criança se torne leitora de fato”, explica a pesquisadora Diana Navas, pós-doutora em Literatura pela Universidade de Aveiro, ministra ministra aulas no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Crítica Literária e no Programa de Língua Portuguesa da PUC-SP.
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Sim, ler para bebês é ótimo. Mas nem sempre é tão fácil.
Primeiro, porque famílias e cuidadores nem sempre se sentem seguros na hora de fazer essa mediação de leitura para crianças tão pequenas. Enquanto o bebê ainda fica mais paradinho, só acompanhando o som da voz do mediador deitado no berço, é até mais tranquilo - embora pensamentos como ‘será que ele está entendendo?’ ou ‘será que eu estou fazendo certo?’ possam surgir. A coisa complica quando as crianças começam a querer pegar - ou até morder! - os livros durante a leitura. Ou quando se levantam no meio da história atraídos por qualquer outro evento - do barulho do carro que passa na rua à descoberta do brinquedo esquecido debaixo do sofá. A impressão é que tudo interessa mais do que o livro que o adulto segue lendo sem muita convicção. Afinal, parece que o bebê não está mesmo prestando atenção.
Mas será que não está mesmo?
Talvez a primeira coisa a saber para baixar um pouco as expectativas é que a experiência de leitura para bebês é feita com o corpo todo. “O bebê vivencia a sonoridade da voz, o colorido das imagens, o gesto de folhear. Às vezes é mais sobre mastigar a capa, bater na página, tentar virar antes da hora. Tudo isso é leitura na primeiríssima infância”, explica Diana. Enquanto os adultos leem para entender a história, os bebês se relacionam com a leitura como uma experiência corporal, sensorial e, principalmente, relacional. Ele se interessa pelas cores, pelas texturas, pelo som da voz de quem lê.
O mais importante é o prazer. Se o livro traz conceitos, ótimo, mas que venha junto de uma boa imagem, de uma sonoridade gostosa, de uma experiência estética. O bebê não precisa de lição, ele precisa de encontro com a linguagem, com a arte. E se isso ensinar algo no meio do caminho, melhor ainda”, Diana Navas

A perspectiva do bebê precisa ser levada em conta na hora da mediação - Ilustração de Berço, balanço, colinho, neném, de Tieza Tissi, Rafaela Deiab e Clara Gavilan
Leticia Liesenfield, que teve sua formação inicial no teatro, depois tornou-se mestre em Comunicação e Artes pela Universidade Nova de Lisboa e se especializou na mediação de leitura para a primeiríssima infância, explica que o que nós, adultos, chamamos desatenção, a partir de uma abordagem artística ela chama de atenção flutuante. “O bebê tem uma grande capacidade de percepção de detalhes, mas com um campo de atenção muito aberto e mais curto”, explica.
Na prática, quando o bebê se volta para outra atividade no meio da mediação, é porque o ciclo de atenção dele acabou. Cabe ao mediador, atrair de volta a atenção para o livro e principalmente tentar fazer o que Leticia chama de “fechar os ciclos de atenção”. O raciocínio é o seguinte: imagine que você começa uma coisa e termina, cumprindo um ciclo curto. Logo em seguida, começa outra coisa e termina, outro ciclo curto. E assim, essas ações curtas, que vão se encadeando, aumentam o tempo de concentração do bebê no livro. Pode ser um personagem que aparece…. e desaparece, por exemplo. Ou uma página que se abre e se fecha. “Muitas vezes, quem lê para bebês vai adicionando elementos, sem dar um fechamento. Isso pode ser cansativo para bebê”, explica.
Quando o bebê é atravessado de uma forma muito intensa pela experiência de leitura, ele também pode tentar se levantar. Em alguns momentos, chega até a prender a respiração - porque recebeu estímulo demais, informação demais. Para aliviar esse excesso, um dos recursos trazidos do teatro que Leticia usa nas mediações é respirar: fazendo barulho ao puxar e soltar o ar, de frente para os bebês. Isso os ajuda a tensão do excesso de estímulos.
Me concentro muito na relação física com o livro, que é a forma como também o bebê se relaciona com ele. “Eu até coloco o livro na boca de vez em quando, mordo como os bebês fazem. Há uma intencionalidade nisso. Na abordagem artística, uma escolha não é confundida com um descuido e os bebês reconhecem isso”, Leticia Liesenfiel
Apesar de defender que os livros para crianças não tenham uma separação rígida por idades, porque tanto crianças pequenas quanto crianças maiores podem se encantar pelos mesmo livros, quando se pensa na mediação de leitura, Monica Correia Baptista, pedagoga, doutora em Educação e professora associada da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde faz parte do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Infâncias e Educação Infantil da Faculdade de Educação, defende que no caso dos caso dos bebês é um pouco diferente. Monica é a idealizadora da Bebeteca, um programa de extensão associado à UFMG e também um espaço de leitura e livros especializado na primeira infância.
“A partir dos trabalhos de mediação, temos identificado que existem especificidades que fazem pensar na necessidade de organizar um espaço específico para os bebês”, explica Mônica. Essa perspectiva leva em consideração dois fatores. O primeiro é a locomoção dos bebês - que a princípio acompanham a leitura deitados ou sentados e, depois de darem os primeiros passos, muitas vezes têm a necessidade de se movimentar pelo espaço durante a leitura. Uma vez que o desenvolvimento motor progride, é importante também pensar em formas de deixar o livro ao alcance desses bebês, o que demanda arranjos e soluções próprios.
O segundo fator leva em conta a experiência de leitura quando bebês e crianças de outras faixas etárias estão juntos. “Uma criança menor tem mais chance de ficar invisibilizada perto de crianças maiores. É claro que é muito legal promover o contato entre o bebê e crianças mais velhas. Mas se a ideia é uma atividade centrada no bebê, é melhor que eles não estejam juntos”, explica. Imagine que você vai a um espaço de leitura e coloca seu bebê sentado no chão no meio de outras crianças maiores, que circulam. Você vai precisar ficar ali do lado do bebê o tempo todo, para protegê-lo. E, com isso, ele perde a possibilidade de ganhar espaço e ter autonomia. Além disso, crianças maiores também costumam ter uma experiência diferente com a mediação - interrompem, fazem perguntas, demandam explicações e com isso o bebê acaba de certa forma ficando em segundo plano.
O mais importante, como falamos antes, é a companhia: ler com bebês é reaprender a ler junto. Se o adulto com ele aproveita a leitura, a tendência é que o bebê queira muito a mesma companhia em uma próxima vez. O inverso também é mais que verdadeiro: este será um momento que você não vai se esquecer mais.
E na hora de fazer a mediação: o que pode ajudar?
A partir do diálogo com as especialistas, confira algumas dicas que podem ajudar a ter uma experiência de mediação de leitura mais bacana com o bebê:
(Texto: Naíma Saleh/ Edição Cristiane Rogério)
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