A criança e o exercício de descoberta do mundo
O desejo de proteger os filhos pode criar a ilusão de que os pais podem controlar as experiências que as as crianças inevitavelmente vão vivenciar na descoberta do mundo
Na guarda, um jornal nos conta que animas fugiram de um parque safári naquela manhã. E é nesta mesma manhã que Lili encontra um curioso "au-au".
Repare nos olhares e expressões das personagens: Lili está felicíssima por encontrar um au-au, o que nos leva a imaginar que ela deseja um cachorro há tempos. Ou que pelo menos gosta muito deles. Já o urso, que buscava apenas algo para comer, olha para Lili confuso e surpreso.
O fato de Lili achar que um urso enorme é um "au-au" dá o tom de humor à obra, que diverte os pequenos. Quem chamaria um animal enorme desses pelo apelido fofo de "au-au"? É riso na certa.
Adoramos essa imagem aí acima, que é particularmente especial para a obra. O autor, Adam Stower, coloca Lili e o urso frente a frente. Note que, com poucos recursos gráficos, ele exprime toda uma ideia. Lili é pequena diante de um animal enorme que, obviamente, não é um cachorro. E é só a oposição entre os dois que deixa bem clara a enorme diferença de tamanho entre a garotinha e seu au-au.
É essa ilustra também que mostra bem de pertinho uma mudança no olhar do urso. Se, antes, ele estava desconfiado, agora, olhando a menina nos olhos, parece curioso e pleno de afeto. Começa aqui o vínculo entre ambos.
O urso vira o "au-au" de Lili. Mesmo bravo (primeira ilustra acima), ele não resiste ao convite dela e aceita a coleira (terceira, aqui no cantinho).
Um outro ponto interessante é reparar que o olhar da menina sobre o mundo, que a faz acreditar que um urso seja um cachorro, permeia e define a narrativa. Adam Stower assume esse ponto de vista infantil, transformador, criativo e que não vê empecilhos ou "objetividade" capazes de invalidar um sentimento, um desejo, um sonho.
O urso, ao aceitar esse papel de cãozinho fofo, parece sinalizar, na narrativa, que um olhar sensível e amoroso, cheio de afeto e desejo, como o das crianças, dá conta de refazer qualquer realidade (o que é realidade mesmo, afinal? Não tem muito de como vemos naquilo que vemos?).
E assim se dá essa relação: urso e Lili, juntos, passeiam, brincam, assaltam a geladeira... Mas o au-au "lindo e bobo", como ela chama, esse au-au que "nunca obedece" igual os outros cachorros (prepare-se para mais risos com as cenas que ilustram essa constatação da menina), tem que ir embora.
O que acontece com ambos diante da volta do urso ao parque safári?
A história termina reafirmando os temas que parecem ser centrais: a relação das crianças com os animais e o olhar transformador (e por que não redentor?) delas sobre o que chamamos realidade. Ah, claro, com mais uma boa dose de humor para divertir pequenos e grandes leitores.
As tintas delicadas, de traços finos e elegantes do britânico Stower, mestre em ilustração narrativa, merecem atenção especial. A obra foi indicada a um importante prêmio inglês em 2012. Ele tem outro livro editado no Brasil pela Brinque-Book, que orbita tema parecido e dá uma sequência à história de Lili: Gatinho levado.
Oi, au-au é indicado para crianças a partir de 2 anos. As que estão em fase de alfabetização vão se interessar também, pois o livro é todo em letra-bastão, o que facilita a leitura autônoma.
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