‘Papai’ mostra muitas formas de ser pai - principalmente as imperfeitas

03/08/0026


“Papai é forte!”


O texto diz. Na imagem, um diminuto filhote de gorila observa com admiração a envergadura do pai. 

Mas o olhar do pai gorila parece hesitar. 

Gorilas do livro Papai

O pequeno Gorila admira a potência do pai em 'Papai' (Brinque-Book, 2026), de Christian Robin


Algumas páginas adiante, vemos à direita um ninho com dois bebês coruja. Do outro lado, o papai coruja voa. “Papai tem que ir embora”, diz o texto. E talvez surja uma pontada de tristeza.

A narrativa continua com mais pais e mais filhos: cavalos-marinhos, tubarões, leões, porcos-espinhos até chegar em pais e filhos humanos. Entre a expectativa e a realidade (ou seria, a humanidade?) Papai (Brinque-Book, 2026), novo livro do premiado autor norte-americano Christian Robinson explora paternidades possíveis. Entre pais que ficam e pais que se ausentam, pais que seguram firme os filhos e até os que, mesmo sem intenção, acabam machucando, a natureza dos bichos espelha nossas relações tão humanas nesta obra que foi traduzida pelo também autor Jefferson Tenório (de O Avesso da Pele, Estela Sem Deus, editados pela Companhia das Letras).


Em Papai, Christian usa textos concisos em diálogo com ilustrações feitas com colagens que fascinam pela simplicidade. É assim que ele vai construindo, página a página, uma paisagem em que há espaço para todo tipo de pai. Nascido em Los Angeles, Estados Unidos, e criado por sua avó e sua tia junto com o irmão e primos, Christian não teve um pai presente – o que talvez explique o olhar curioso e honesto que conduz essa investigação. “O livro parte basicamente de uma pergunta que eu me faço: o que é um pai? Isso é algo que eu não conseguia responder por mim mesmo, porque não tive essa figura”, contou o autor em entrevista ao Blog Letrinhas.


Christian, que venceu o prêmio Coretta Scott King, recebeu as Medalhas Sibert e Newbery, além de  menção honrosa no prêmio Caldecott, também publicou pela Companhia das Letras o livro Nina - Uma história de Nina Simone (Pequena Zahar, 2022), assinado com Traci N. Todd e traduzido por Nina Rizzi. Ao Blog Letrinhas, ele falou sobre o novo livro, as muitas formas de um pai se fazer presente e sobre  a importância de que as crianças se sintam vistas e representadas. 

 

Confira a entrevista com Christian Robinson

Christian Robinson

O autor Christian Robinson com a publicação original, em inglês

 

Blog Letrinhas: Em Papai, você aborda as diversas formas de ser pai. De que forma você enxerga como os pais são geralmente retratados nos livros infantis?

Christian Robinson: Pra ser sincero, não sei se eu já prestei atenção nisso... Quer dizer, eu faço livros infantis. Sou fã de livros infantis. Mas não sei se eu olho para eles dessa forma… Eu fico atento à arte, às imagens e como elas me fazem sentir.  Eu não cresci com uma figura paterna. Então eu provavelmente também não lia livros que tinham pais… e talvez tenha sido por isso que eu quis contar essa história. Uma história que mostra diferentes tipos de pais, mesmo aqueles que são figuras ausentes ou que não estão mais aqui. E quis colocar isso em uma história para crianças. 


Blog Letrinhas: Você já mencionou em outras entrevistas que queria retratar animais que não são considerados bons pais na natureza. Pode nos dar exemplos?

Christian Robinson: O livro parte basicamente de uma pergunta que eu me faço: o que é um pai? Isso é algo que eu não conseguia responder por mim mesmo, porque não tive essa figura. Então, procurei essa resposta na natureza, que é sempre onde procuro minhas respostas. Há tanta sabedoria na natureza. Eu olhei para os animais, porque eu amo animais e sei que as crianças também amam animais. E foi importante para mim mostrar vários tipos de pais, várias formas de presença. Os animais podem representar tantas coisas. Por exemplo, o porco-espinho. Tem um porco-espinho com espinhos pontudos, que aparece em uma imagem espetando o filhote. Eu sempre me asseguro, quando eu estou lendo essa parte para as crianças, de fazer pausa e perguntar para elas: “vocês acham que ele está fazendo de propósito? Vocês acham que ele queria machucar o filhote?” E as crianças respondem: “não, foi um acidente!”. E isso é importante. Às vezes, mesmo sem querer, machucamos outras pessoas. 


Blog Letrinhas: E agora, depois do livro, você tem alguma ideia mais consistente do que é ser um bom pai ou sobre o pai que você gostaria de ser depois do processo de fazer esse livro?

Christian Robinson:  Hum… (risos de nervoso) O que é um bom pai? Acho que isso daria outro livro. Eu acho que eu só queria saber o que é um pai. Acho que uma boa representação para um pai seria a de alguém que faz você se sentir seguro, visto, ouvido. Basicamente alguém que te mostra que você é importante. Eu acho que muitos dos problemas no mundo de hoje vêm, talvez de muitos de nós, que não receberam esse tipo de afirmação, de que nossa vida importa, de que nossa presença importa, de que nossa história importa. É isso o que me leva a escrever livros ilustrados: fazer com que todos os tipos de crianças sintam que aquilo que elas vivenciam está sendo visto, que elas importam. Todo mundo conhece o sentimento de se iluminar quando se sente visto. Acho que é isso o que se espera que um bom pai faça.


Blog Letrinhas: Você fez uma publicação genial nas suas redes sociais que começa perguntando: “E se a Estátua da Liberdade fosse uma mulher negra?” Como é, para você ser um autor negro vencedor de tantos prêmios  — neste momento que os Estados Unidos estão vivendo?

Christian Robinson: São tempos desafiadores para contadores de histórias, especialmente nos Estados Unidos. E especialmente se você quer contar histórias que contam a verdade. Algumas verdades fazem as pessoas se sentirem desconfortáveis, porque as fazem encarar coisas que elas não querem ver. Nesse momento, a literatura infantil está sob ataque. Há vários livros que foram banidos de escolas e de bibliotecas, incluindo alguns meus. É um desafio. Mas também é motivador. Eu sempre olho para o passado quando preciso buscar forças. Porque eu consigo reconhecer que meus ancestrais, e os que vieram antes deles, sedimentaram o chão para que eu pudesse existir hoje nesse mundo. Então eu sinto que é nossa responsabilidade continuar esse trabalho.

 

Os elefantes em Papai

Pai elefante e seu filhote em 'Papai' (Brinque-Book, 2026)


Blog Letrinhas: Nesse cenário, você se sente mais responsável, no sentido de se considerar um exemplo para as crianças que leem os seus livros?

Christian Robinson: Essa ideia de ser um “modelo” me deixa um pouco desconfortável, porque eu não acho que ninguém deveria imitar qualquer coisa que eu faça. Eu gosto mais de ser um modelo de possibilidade [a expressão usada pelo autor foi ´possibility model’, que se refere a alguém que serve como inspiração, abrindo outras possibilidades sobre formas de se viver ]. Tudo o que eu faço é mostrar às crianças uma possibilidade, uma possibilidade de estar presente no mundo. Acho que as crianças buscam inspiração nos adultos que as cercam. Crescer é assustador até onde eu me lembro. Tem tanta coisa que você está tentando entender, tanta coisa que você não sabe… e tem a compaixão do mundo ao seu redor. Eu sinto com frequência que as pessoas podem até me ver como alguém que tenta ser uma boa referência para as crianças, mas eu não me vejo nessa posição. Eu sinto que eu faço as coisas que eu tenho que fazer. Eu amo desenhar, eu amo contar histórias, foi isso o que eu fiz a minha vida inteira. Às vezes, educadores, pessoas que lidam com crianças no dia a dia me elogiam, me dão retornos positivos, me dizem que eu devia ir à comunidade delas falar mais sobre as coisas que eu falo e mostrar às crianças o que é possível. E o que eu respondo é que, enquanto eu estava crescendo, eu não tive como referência uma figura parecida comigo, mas tive professores incríveis. Que me fizeram sentir que eu era importante, que me ouviam, que estavam lá para mim todos os dias. Eu estou aqui graças a forças muito positivas que eu tive na minha vida. Eu tive um professor que me dava carona para o colégio porque a minha avó, que me criou, era ocupada demais para poder me levar. Eu gosto de lembrar que cada um tem um papel. Assim temos muitas possibilidades de modelo.


Blog Letrinhas: E como artista e autor, quem são as suas inspirações, suas referências?

Christian Robinson: Eu me inspiro em muitas coisas. Na arte. Na natureza. Minhas referências normalmente vão além da literatura infantil. É claro que há muitos autores que eu admiro, que tem trabalhos incríveis como Ezra Jack Keats [de Um dia de Neve (Companhia das Letrinhas, 2021], Virginia Lee Burton [de The Little House (1943)], Maurice Sendak, Eric Carle… Todos essas lendas. Mas para ser sincero, as minhas referências artísticas vêm de outros lugares. Eu amo música. E nas belas artes, Picasso e todos os grandes. Ah, e eu amo black art. Elizabeth Catlett é uma das minhas favoritas. 


Blog Letrinhas: E como você percebeu que a arte e o desenho se tornariam uma profissão?

Christian Robinson: Eu sempre desenhei, e fui estudar animação porque eu queria trabalhar com desenho em movimento em um desses grandes estúdios. Eu consegui, mas acabei sendo demitido. Só que antes da demissão, me pediram para produzir um livro ilustrado a partir do filme em que eu tinha trabalhado. Foi a minha primeira experiência como ilustrador de livros. Então, um agente literário me encontrou e me abriu a porta para esse mundo.


Blog Letrinhas: Então, você foi encontrado. Não era algo que você estivesse exatamente procurando?

Christian Robinson: Sim, eu fui encontrado, mas em algum nível, eu esperava ser encontrado (risos). Eu sempre digo isso para jovens artistas: eu fui criando coisas e compartilhando com o mundo. Antes do Instagram, eu colocava minhas coisas no Blogspot e foi assim que um agente me achou. Há algo de vulnerável em mostrar suas coisas. Mas você nunca sabe quem pode estar olhando. 


Blog Letrinhas: E hoje, que todo mundo está nas redes sociais, você se sente mais pressionado a mostrar seu trabalho?

Christian Robinson: Acho que a gente se distrai em criar conteúdo em vez de simplesmente criar arte. Para mim é difícil. Eu mostro meu trabalho, quando eu tenho que mostrar ou quando sinto que devo mostrar. Mas percebi que, às vezes, quando armo a câmera para me gravar produzindo algo, isso me tira desse espaço mental da criação, e eu sinto que estou perdendo um tanto dessa experiência que eu amo. Mas reconheço que mostrar o que você faz, é a única forma de deixar as pessoas conhecerem, de fazer conexões e levar seu trabalho a outros lugares. Acho que depende de cada um. Nem tudo o que você cria precisa ser mostrado. Nem tudo o que você cria tem que ser para outra pessoa. Eu estou aprendendo a voltar para esse espaço de criar sem monetizar, vender ou fazer coisas para que as pessoas gostem. Posso fazer arte estúpida ou feia só para mim.


Blog Letrinhas: Você em breve lança um outro livro… Mamãe. Pode nos contar um pouco sobre ele?

Christian Robinson: A pressão está sobre as mães. Elas precisam ser tudo. Mas com esses dois livros, Papai e Mamãe, eu queria mostrar algo que demorei muito para aprender, que é: pais também são humanos. A gente gosta de romantizar, de idealizar, colocamos pais em pedestais, em papéis impossíveis de cumprir, especialmente as mães, mas todos os pais e mães cometem erros. Eles também estão aprendendo. 


(texto: Naíma Saleh)

 

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