Planejamento de Leituras do ano: o que é preciso considerar?
Cada coordenador pedagógico e professor tem seu próprio processo para desenhar o percurso das leituras. Mas há alguns fatores que precisam ser levados em conta
Antes mesmo dos livros, surgem as histórias. Aquelas de boca, contadas antes de dormir, ao pé do fogão, no colo de uma avó, como é o caso da origem das narrativas que integram o livro Histórias de antigamente, de Patricia Auerbach. Ou aquelas que nascem de uma observação ou uma situação, a exemplo de A cicatriz, escrita por Ilan Brenman.
Se Histórias de antigamente revela as lembranças que a escritora guarda de seus tios e avós, A cicatriz traz uma narrativa que surgiu depois de uma vivência do autor com uma das filhas. O ocorrido inspirou Ilan a escrever uma história que fala da importância de nossas marcas – na pele ou não. Ambas as obras guardam o poder das palavras para além do livro; surgem da convivência cotidiana.
Uma boa narrativa parte de um pequeno detalhe e reverbera como uma pedra em um lago, lembrando de outras histórias que armazenamos há tempos. “O que me interessa são as formigas, não são os elefantes”, diz Ilan. A cicatriz é um exemplo desse fenômeno, como bem percebe Patricia. “As histórias brotam." Conta que o seu livro é como uma cicatriz emocional, já que lembra de momentos que guarda com carinho.
A potência de uma boa história sempre vai além do esperado. Ilan lembra que o procurou uma mãe cujo filho tinha sofrido um acidente e perdido um dedo. Não queria mais ir à escola. Um dia, leu A cicatriz. “Quero ir à escola”, concluiu, após uma semana, “contar a história da minha cicatriz para os meus amigos”. É a literatura infantil para além do colorido.
Os autores também criticam essa obrigação de felicidade que parece, muitas vezes, imposta à criança, como se não houvesse lugar para a tristeza ou para a angústia na infância. Defendem uma literatura e uma educação que considerem momentos difíceis, áridos ou turbulentos. "A gente tem que ter clareza que a criança é também um ser humano, e bem complexo", explica Ilan.
Além disso, as histórias de boca ensinam o valor do passado, em uma época em que só o futuro parece importar. Patricia vai além: "Acho que há uma desatenção com o presente, de parar, estar ali, naquele momento." Nesse sentido, há uma grande diferença entre um relato de Facebook de um amigo e uma lembrança que brota numa conversa com o avô. Há o poder da convivência, de estar no aqui e no agora.
Confira mais no vídeo acima, que traz um bate-papo entre os autores.
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