Companhia das Letras comemora 40 anos
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Depois que um livro está pronto, é engraçado pensar no começo, aquele momento em que a ideia ainda é uma miragem. Pelo menos para mim, a construção de um romance nunca é uma reta, e sim uma espiral. Há um centro para o qual os elementos convergem, mas todo o resto é apanhado no meio do caminho, são os rastros e os restos da passagem do furacão, elementos soltos que se encontram de um jeito bonito – de alguma forma, depois de escritos, fazem tanto sentido que é como sempre estivessem ali.
Com meu terceiro romance, A linguagem dos desastres, foi assim que aconteceu. O olho do furacão surgiu logo após a pandemia, quando uma sensação estranha e inequívoca tomou conta de mim: a percepção de que estávamos vivendo o esfacelamento da realidade, com o agravante de ninguém estar realmente olhando para o problema. Um romance é uma coleção de obsessões e, naquele momento, estava obcecada pelos impactos da crise climática no cotidiano e como narrar essas transformações. Era uma coisa que eu via, continuo vendo, mas sempre que falava com as pessoas a respeito encontrava um dar de ombros impaciente. E daí, alguém chegou a me dizer. Não somos nós que lidaremos com isso.
O que eu tinha para escrever um livro era isso: uma obsessão e uma imagem. O incêndio que finaliza o romance talvez tenha sido o primeiro elemento concreto a surgir. Todo o resto se construiu ao redor dele. Os personagens demoraram a chegar, fui tateando, escrevendo esboços que não me convenciam, vozes narrativas que não se sustentavam. Então, dei à luz. Isso é importante porque, junto com a vida da minha filha, eu recebi meus personagens.
Minha filha mais velha, Isabel, nasceu em agosto de 2023, mês mais quente da história até então. O calor era tão insuportável que não conseguíamos vesti-la – este é o único fato biográfico do livro. Como a protagonista do meu romance, Catarina, minha bebê também nasceu em uma primavera incendiária. Lembro-me de ninar aquela criança de quatro meses, nós duas em prantos com as enormes brotoejas de calor em seu corpinho miúdo, só me fez confirmar sentimento que eu vinha tendo, de que alguma coisa estava errada, de que esse planeta está em colapso. Como será a vida de quem crescer nesse planeta transformado? Foi então que eu entendi tudo. A história que eu queria contar era a história de quem vai nascer a partir de agora.
Habitando mundos e opiniões distintas, Catarina e Augusto são um retrato de um futuro que se avizinha, um futuro que é também o presente. O tarô foi uma das outras obsessões do bolo – estudo tarô há quase uma década, achei que seria interessante entrelaçar os temas. Não foi sem uma pontada de dor que eu decidi pelo final, que não deixa de ser um chamado. Estamos vivendo muitas tragédias coletivas, sim, mas a saída está em enxergar o que está acontecendo – e acreditar nisso.
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Nascida em meio a um blecaute, Catarina vem ao mundo sob o prenúncio do fim. Filha de uma artista plástica que tenta reencontrar a inspiração e de um bancário pragmático e silencioso, ela cresce em meio a secas, enchentes e apagões que parecem ditar o ritmo da vida familiar. Desde cedo, carrega uma sensibilidade fora do comum — ouve o que os outros não escutam, enxerga presságios nas pequenas coisas e acaba por buscar respostas em um velho baralho de tarô da mãe.
Em uma Brasília que alterna entre estiagens e tempestades, ela cresce como uma criança solitária em uma sociedade em que ter filhos beira o imoral. Quando Augusto, acompanhado apenas da mãe, muda-se para a casa ao lado, o destino dos dois se entrelaça. A amizade entre as crianças nasce da curiosidade e da solidão, mas logo se transforma em algo ambíguo: uma relação tão afetuosa quanto cruel, que atravessa a infância e a juventude.
Enquanto o mundo à sua volta se fragmenta, Catarina tenta compreender a realidade e a si mesma. No simbolismo das cartas de tarô ela busca sentido para o caos, como se nelas houvesse uma forma não de prever o futuro, mas de decifrar as ruínas.
Em A linguagem dos desastres, Fabiane Guimarães conduz o leitor por uma história de afeto e de sobrevivência, em que o íntimo e o apocalíptico se confundem. Um romance avassalador sobre o peso de herdar um planeta em colapso e a tentativa de encontrar beleza entre as cinzas.
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Fabiane Guimarães nasceu no interior de Goiás, em 1991, onde cresceu e começou a escrever ainda criança. Jornalista formada pela Universidade de Brasília (UnB), é autora dos romances Apague a luz se for chorar e Como se fosse um monstro, publicados pela Alfaguara, com os quais foi indicada ao Prêmio São Paulo de Literatura, ao prêmio Candango e ao prêmio Jabuti.
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